sábado, 8 de dezembro de 2018

Documentos inéditos revelam como foi reunião que decidiu o AI-5


13 de dezembro de 1968, no Palácio das Laranjeiras: Ministro Gama e Silva divulga Ato Institucional Número 5 através de cadeia de rádio e televisão (Antônio Teixeira/Acervo CPDoc-JB)
Créditos da foto: 13 de dezembro de 1968, no Palácio das Laranjeiras: Ministro Gama e Silva divulga Ato Institucional Número 5 através de cadeia de rádio e televisão (Antônio Teixeira/Acervo CPDoc-JB)
O ano de 1968 terminou mais cedo.

 

AI-5 faz 50 anos, com generais de volta ao poder. Pelo voto

Sob o argumento de que era “imperiosa a adoção de medidas” que impedissem fossem “frustrados os ideais superiores da Revolução”, o ano acabou no dia 13 de dezembro, por decisão do regime militar, com a edição do Ato Institucional nº 5.


O país foi mergulhado num autoritarismo ainda mais profundo, sob o peso da cassação das liberdades democráticas. O AI – 5 asfixiou o Brasil, até que morreu à míngua, numa agonia negociada e lenta.

Com a economia claudicante, o retorno de alguns exilados que se incumbiam de fazer o relato das barbaridades testemunhadas ou vividas nos porões, e a campanha pró-anistia ganhando as ruas, a sociedade brasileira foi vencendo a luta pela democracia. Mesmo assim, tendo que ceder e negociar, como a anistia para “os dois lados”, que acabou enterrando qualquer possibilidade de punição para os culpados dos crimes de graves violações dos direitos humanos.

O país saiu fortalecido, mas este Ato vigorou por dez anos, até 31 de dezembro de 1978, deixando nas gavetas dos diversos arquivos, material que agora começa a emergir pelo trabalho de pesquisadores dedicados ao tema.

Durante pesquisa no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, localizei o bloco de anotações do então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), Emílio Garrastazu Médici, que viria a ser o terceiro general-ditador, em cujo período foram mortos ou “desaparecidos” o maior número de militantes da resistência ao regime.

Fonte: CARTA MAIOR

Eduacação: Seis respostas sobre como combater o Escola Sem Partido

Escola sem partido (Charge de Mário)

Créditos da foto: Escola sem partido (Charge de Mário)

Manual de Defesa traz estratégias para que profissionais da educação se protejam de ameaças e perseguições


Em janeiro de 2017, o prefeito de Ariquemes, em Rondônia, anunciou que suprimiria páginas de livros didáticos enviados pelo Ministério da Educação às escolas públicas do município. O motivo: ele e sete vereadores da cidade consideravam que o material apresentava conteúdo sobre “ideologia de gênero” e incitava a sexualidade precoce, além de fazer apologia à homoafetividade. Na verdade, as cartilhas mostravam famílias constituídas de diversas maneiras, incluindo por pais do mesmo gênero.

Esse é um dos onze “casos-modelo” citados pelo Manual de Defesa Contra a Censura nas Escolas. Lançado no último dia 27, ele traz histórias em que houve tentativa de controle da atividade educacional em escolas pelo Brasil. Para cada caso, são listadas estratégias jurídicas e político-pedagógicas a serem adotadas por educadores ou gestores que foram alvo de episódios de constrangimento ou perseguição.

O documento foi elaborado coletivamente por cerca de 60 organizações em “resposta às agressões dirigidas a professoras e professores e a escolas como estratégias de ataque de movimentos reacionários à liberdade de ensino e ao pluralismo de concepções pedagógicas”.

Um desses movimentos, o Escola Sem Partido, avança no Congresso Nacional: o Projeto de Lei 7180/2014, – conhecido pelo mesmo nome – que quer acabar com a “prática de doutrinação política e ideológica” pelos professores, tramita em comissão especial na Câmara dos Deputados. Na terça-feira (4), os parlamentares da comissão se reuniram para votar o parecer do relator Flavinho (PSC-SP), mas requerimento apresentado por parlamentares da oposição causou discussões e a sessão foi suspensa – a votação deve ficar para quinta ou sexta-feira.

Pública entrevistou Denise Carreira, da coordenação da ONG Ação Educativa, uma das que capitaneou a produção do Manual. De acordo com ela, a cartilha teve pelo menos 60 mil downloads em 10 dias – isso apesar do site ter sofrido ataques e tentativas de derrubada.

Carreira explica que o guia “está conectado a uma estratégia maior não só de enfrentamento do ultraconservadorismo mas também de proposição, de anúncio de possibilidades que permitam reforçar a importância do debate sobre qualidade educacional e da garantia do direito à educação do país”, aponta. Nesta entrevista, ela explica alguns passos de podem – e devem – se adotados pela sociedade civil, professores, pais de alunos e quem mais estiver interessado em defender a educação de qualidade e sem censura.

Como a atuação de grupos defensores do Escola Sem Partido tem afetado professores dentro das salas de aula?

Do ponto de vista qualitativo, esse movimento todo impacta a qualidade dos ambientes escolares. Há um crescente processo de autocensura entre os professores, já que ficam receosos de abordar certos conteúdos, com medo de uma retaliação.

As ameaças e perseguições também criam uma desconfiança muito grande nos ambientes escolares – quem é quem, quem pode denunciar, será que posso ser foco de uma denúncia? – já que ela gera um processo de desqualificação pública. Há grupos que estão tentando coagir diretores e secretários de Educação, fazendo ameaças. É um jogo perverso. Todo esse clima compromete, muitas vezes, a saúde mental e física de professores, gestores, estudantes e famílias, e possibilita o crescimento da intolerância, inclusive religiosa.

Mas existe uma subnotificação desses casos por conta do medo.

De que maneira o Escola Sem Partido e esses grupos atentam contra as leis?

A Constituição, a Lei de Diretrizes e Bases [LDB] e o Plano Nacional de Educação estabelecem como desafio maior da educação o compromisso com o enfrentamento das desigualdades, a valorização da diversidade e a superação das discriminações. Esses são princípios constitucionais previstos no artigo 3º, e que tomamos como base para todos os outros.

O Escola Sem Partido e os demais grupos ferem esses princípios e outros, como o da liberdade de cátedra e expressão e o da pluralidade pedagógica, pois defendem que a escola só pode abordar conteúdos que tenham a máxima concordância das famílias.

O problema é que estamos assistindo a um movimento de crescimento do ultraconservadorismo e de determinadas denominações religiosas fundamentalistas entre as famílias. Nós destacamos em vários momentos do Manual que ser religioso não significa ser fundamentalista religioso. Há muitas organizações religiosas contrárias aos grupos fundamentalistas que veem sua doutrina como a única verdade. A escola – a pública, em especial – tem de ser o espaço onde as crianças, adolescentes, jovens e adultos acessam outras perspectivas para além das perspectivas da família. Tem que ser o lugar da dúvida, da pesquisa, do debate, justamente para que se possa construir uma formação crítica e criativa. Esses grupos querem cercear a escola, querem que ela seja apenas um desdobramento de certas lógicas familiares. Uma parte desses grupos defende, por exemplo, que a escola só pode abordar o criacionismo. É algo extremamente assustador.

Falando especificamente sobre a agenda de gênero, temos no Brasil algo muito importante, que é o artigo 8º a Lei Maria da Penha. Ele estabelece que, para enfrentarmos a violência contra meninas e mulheres, é fundamental o investimento na abordagem de gênero e raça na educação. Há ainda as liminares dos ministros do STF Luís Roberto Barroso e Dias Toffoli que reforçam a abordagem de gênero nas escolas. Do ponto de vista legal, temos uma base consistente para continuar fazendo o trabalho.

O desafio do Manual e de outras estratégias que pretendemos trabalhar é que as professoras e professores, e também os diretores conheçam essa base legal. E que saibam que os 181 projetos de lei sobre o Escola Sem Partido são inconstitucionais.

O problema é que esses grupos do Escola Sem Partido, para além da disputa institucional e legal, estão travando uma disputa cultural. Por isso prevemos também o lançamento de materiais para as famílias, já que, no mundo das escolas, existem as turmas a favor e contra esses grupos, mas também uma grande parcela que está no meio das duas, confusa sobre o que está em jogo.

Denise Carreira, da Ação Educativa, uma das organizações responsáveis pelo Manual, elaborado coletivamente por cerca de 60 organizações (Divulgação/Ação Educativa)

Como você avalia a atuação do Poder Legislativo – a nível federal, estadual e municipal – em apoio ao Escola Sem Partido?

Acho que há uma combinação de oportunismo, já que foi criada toda uma onda de pânico moral. Uma boa parte desses parlamentares, inclusive por interesses eleitorais, vem manipulando esta agenda no sentido de vincular essa onda de pânico moral que também esconde os interesses de determinados grupos fundamentalistas religiosos.

Existe uma parcela da sociedade que é contrária a tudo isso e existe uma boa parcela que está ainda confusa sobre o que está em jogo. Está omissa em relação ao que vem acontecendo.

Eu acho que um dos nossos desafios é poder justamente dialogar com esses setores. É mostrar principalmente que o que está sendo proposto fere a garantia dos direitos da educação de qualidade.

Não há como ter qualidade de educação com grupos que promovem o silenciamento, a censura, perseguição e ameaça. Isso tudo vai contra a uma qualidade de educação porque qualidade de educação significa ter uma educação crítica, ser ativo a plural. Essas coisas que eles promovem não tem nada a ver com isso.

Na sua opinião, qual deve ser a estratégia de combate institucional ao Escola sem Partido?

Nós temos muitas expectativas que o STF possa exercer esse papel fundamental que dá limites a essas perseguições, a essas ameaças, a essa censura que cresce no ambiente escolar e que fere princípios constitucionais. Lembrando que o STF em muitos momentos, mais recentemente em na DPF 548. que tratou sobre as ocupações policiais nas universidades e foi muito firme defendendo a pluralidade do ensino, defendendo a liberdade de expressão, a liberdade de cátedra. Tem muita argumentação jurídica consistente para que o STF possa dar esse limite.

O segundo é fazer o acompanhamento no Congresso Nacional, na Câmara dos Deputados, pelos vários grupos que estão acompanhando e atuando com relação à tramitação do PL. Temos um grupo de parlamentares comprometidos com a educação de qualidade. Estamos falando de parlamentares de vários partidos. Nós sabemos que o Plano Nacional de Educação foi uma conquista suprapartidária de vários partidos que somaram força. Em nome dessa conquista, que é uma conquista da sociedade brasileira. Não é de um grupo político.

E como combater isso no cotidiano dos professores dentro das escolas?

É muito importante o professor e a escola em si – não só o professor isoladamente, mas a escola também – desenvolver uma relação com as famílias, a relação com o território, promovendo a gestão democrática comprometida com o direito de educação.

Muitos desses grupos têm ocupado conselhos escolares, conselhos tutelares, pra defender retrocessos. Só que uma coisa que a gente deixa nítida no Guia é que a gestão democrática está a serviço da legislação, e não é pra cortar direitos da legislação, entendeu?

Há estratégias jurídicas em casos de ameaças – e aí destacamos a importância de que as educadoras e educadores não fiquem sozinhos, que possam identificar os aliados existentes na própria escola e na comunidade escolar, buscar os sindicatos e outras organizações comprometidas com o direito à educação. Para uma professora que vai trabalhar determinadas agendas, é importante que ela identifique quem são os aliados na escola, quem são as professoras e professores comprometidos com a agenda dos direitos e que podem construir um trabalho mais articulado. Se acontecer alguns tipos de ameaça deve-se ativar esse grupo, ativar também famílias que são aliadas. Há muitas famílias que são aliadas e que podem ser, também, convocadas a se posicionar.

Então, a nossa estratégia é: ter informação de qualidade pra mostrar, investir no trabalho de pesquisa, investir nos estudantes, em metodologias que também estimulem os estudantes a pesquisar, porque esses grupos não querem que ninguém pesquise nada. Eles querem interditar inclusive o trabalho de pesquisa em várias escolas.

O manual cita que as medidas de repressão aos professores costumam não prosperar juridicamente, e que depois se observa nas escolas um fortalecimento do debate.

A gente sabe que tem direções de escola que são favoráveis e outras não. Esse arco de alianças tem que também criar uma proteção e estimular o debate de forma qualificada.

Quando a gente está falando, por exemplo, por que é importante abordar gênero na escola. Podemos começar falando do fenômeno, por exemplo, da violência contra meninas e mulheres no país. A gente sabe que as famílias brasileiras não querem que isso seja uma realidade no Brasil. Inclusive os grupos religiosos estão comprometidos com o enfrentamento da violência contra a mulher. A gente só vai poder educar meninos e meninas para superar o fenômeno da violência contra meninas e mulheres se a gente abordar isso na escola.

Se a gente construir uma educação que enfrente o machismo, o racismo, a LGBTfobia. Nós somos o campeão mundial de assassinatos de travestis e transgêneros. Quando você mostra que tem pessoas morrendo, pessoas que estão sendo destruídas, você abre uma possibilidade de debate com muitos setores da sociedade.

*Publicado originalmente no site da Agência Pública
Fonte: CARTA MAIOR

Soberania Nacional - Bolsonaro e o obscurantismo global

(Arte/Revista CULT)
Créditos da foto: (Arte/Revista CULT)

A Casa de Rio Branco já foi um centro agregador de erudição e humanismo. Desde Joaquim Nabuco a Guimarães Rosa e outros, pensadores corajosos e criativos encontraram na instituição acolhida intelectual e intercâmbio de ideias.
Mesmo pensadores nem sempre alinhados com o chamado mainstream da diplomacia realista, poetas como Vinícius de Moraes e João Cabral de Melo Neto enriqueciam o ambiente de reflexão do Itamaraty e ampliavam em muito a expressão crítica do corpo diplomático. Voltado mais diretamente para o debate político humanista, autores como Rouanet e Melquior deixaram uma marca importante e duradoura no debate nacional e internacional sobre o legado iluminista e a racionalidade ocidental.
Dentro desse contexto e tradição, a indicação da figura obscura de Ernesto Araújo pelo presidente eleito chama a atenção por várias razões. Primeiro, o nome sugere uma escolha pela mediocridade tipicamente demonstrada pela maioria dos outros ministeriáveis já anunciados. Embora diplomata de carreira, Araújo não tem experiência à altura do cargo, já que nunca serviu de embaixador em nenhuma representação fora do país. Da mesma forma, rompendo com o decoro exigido pela carreira, fez campanha aberta em favor do presidente eleito. Mas, para além dessas razões formais, o mais grave da indicação se reflete nas ideias que o próximo chanceler trará para o cargo.
De maneira especial, se levadas a sério suas manifestações sobre o cenário global contemporâneo, Araújo defende uma visão de mundo pré-iluminista, ultramontana e, quem sabe, até mesmo medieval. Trata-se talvez mesmo de posições mais conservadoras que as defendidas por pensadores anti-liberais do século 18, como Edmund Burke, e que talvez somente encontrem guarida no romanticismo pós-iluminista, embora em alguns aspectos suas referências se encontrem mais próximas ao corporativismo medieval do que ao mecanicismo oitocentista. De modo concreto, ao afirmar que a crise do mundo de hoje é uma crise pela falta de Deus e do excesso de humanismo e intelectualismo, Araújo faz uma defesa de um entendimento não somente pré-iluminista, mas talvez mesmo pré-renascentista. Da mesma forma, seu entusiasmo quase juvenil com líderes personalistas, como Trump, aproxima -se do culto aos reis absolutistas do século 17 ou mesmo ao culto ao poder curador dos reis medievais.
Além disso, de modo propositivo, e certamente anacrônico e preocupante, o embaixador parece defender que seria na volta a um mundo destruído pela crítica racionalista, novamente pautado pelos valores tradicionais – religião cristã, culto à nação e instituições tipicamente corporatista como a família e os ancestrais -, que problemas gravíssimos do mundo de hoje, como a crise migratória e ascensão do autoritarismo, encontrariam solução.
Desconectadas com o mundo real onde será forçado a trabalhar – onde a interdependência econômica não é fruto de um complô marxista, como parece afirmar, mas sim de uma realidade definida pela expansão do capitalismo global – as visões do futuro chanceler defendendo uma alinhamento automático como relação aos EUA (posição que nunca deu certo, muito menos agora, com Trump), negando a realidade do aquecimento global e defendendo um confronto com a principal economia do mundo, a China, tida como inimiga do Ocidente, numa evocação saudosista ao espírito das cruzadas do século 12, são todas expressões de uma leitura do mundo bastante preocupante e que deveria ser mais profundamente escrutinada, talvez mesmo de modo a desqualifica-lo do cargo.
De fato, se a exaltação desmedida da figura de Trump não parece ter sido vista como um fator desabonador para um futuro chanceler; seu obscurantismo político, anti-humanismo anacrônico, visão caricatural do mundo de hoje, e entusiasmo por figuras personalistas e autoritárias, como seu próprio futuro chefe na cadeira presidencial, são todas posições aceitáveis em um apoiador normal e típico do próximo presidente, não, contudo, em um dos principais ministros do novo governo de uma das principais economias e nações do mundo.
RAFAEL R. IORIS é professor da Universidade de Denver e autor do livro Qual desenvolvimento? Os debates, sentidos e lições da era desenvolvimentista (2017)

*Publicado originalmente na Revista CULT
Fonte: CARTA MAIOR

Moro ministro: o Judiciário sou eu!

Apoiadora de Bolsonaro empunha boneco inflável de Sergio Moro (Silvia Izquierdo (AFP)

Créditos da foto: Apoiadora de Bolsonaro empunha boneco inflável de Sergio Moro (Silvia Izquierdo (AFP)  

Sérgio Moro busca para si mesmo o poder centralizador de decidir quem é terrorista e quem sofrerá as sanções dispostas nas resoluções de um organismo sem qualquer controle de legalidade ou validação pelo sistema interno. Na prática, leva para o Ministério da Justiça o poder de um juiz.

No apagar das luzes do ano que antecede sua posse, o governo Bolsonaro ou, mais diretamente, seu futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, negociam e jogam peso para aprovar os projetos de lei que tramitam na Câmara dos Deputados (PL 10.431/2018) e no Senado (PLS 181/2018), que intentam fazer cumprir no Brasil as sanções impostas por resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, incluída a indisponibilidade de ativos de pessoas naturais e jurídicas e de entidades, e a designação nacional de pessoas investigadas ou acusadas de terrorismo, seu financiamento ou atos correlacionados. Os projetos revogam a Lei nº 13.170, de 2015, que disciplina a “ação de indisponibilidade de bens, direitos ou valores em decorrência de resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas – CSNU”. 

A Lei 13.170, proposta e sancionada pela Presidenta Dilma Rousseff em 2015, enquadrava-se no mesmo enredo da aprovação da Lei Antiterrorismo. A área econômica do governo impulsionou o projeto, ao argumento de buscar atender às recomendações do Grupo de Ação Financeira Internacional contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo (GAFI), com vistas a evitar má avaliação ou desqualificação por parte de agências de classificação de risco. A norma em vigor já estabelece, em seu texto, um rito sumário de execução de resoluções do Conselho de Segurança da ONU, ao determinar sanções de indisponibilidade de bens de pessoas físicas ou jurídicas. No formato da norma vigente, o Ministério da Justiça comunica à AGU, para que esta peça em 24 horas ao Judiciário que determine o bloqueio de bens, e o juiz decide também em 24 horas. Somente em seguida abre-se ao acusado a possibilidade de defesa. 

A diferença fundamental entre a norma vigente e os projetos que tramitam no Congresso Nacional é que neles dispensa-se a atuação dos demais órgãos. De acordo com os textos apresentados, caberá ao Ministério da Justiça fazer cumprir imediatamente as sanções, sem sequer encaminhar o pedido ao Poder Judiciário. Além disso, os projetos trazem a previsão de que pessoas sejam acusadas de vinculação com atos ou grupos terroristas, a requerimento de autoridade estrangeira, de países indeterminados, e não somente do Conselho de Segurança da ONU, bem como que o governo brasileiro, atendendo a pedido da Polícia Federal ou do Ministério Público Federal, independente de ordem judicial, solicite a outros países a indisponibilidade de ativos em razão de terrorismo, seu financiamento e atos. 

São textos que se afiguram claramente inconstitucionais, violando diversos dispositivos que conformam o direito de defesa e o devido processo legal, sepultam os princípios da presunção de inocência, do contraditório e da ampla defesa, previstos na Carta de 1988. Operam uma lógica segundo a qual recuperar bens materiais justificam sacrificar direitos conquistados e o dever do Estado de provar a culpa de um cidadão antes de puni-lo. Mais ainda, são formulações cujo conteúdo não disfarça a busca de centralismo de poder nas mãos de um ministério, cujo futuro ocupante pertencia até menos de um mês, aos quadros do Poder Judiciário, e cujos atos sofreram toda sorte de questionamentos de setores jurídicos e cidadãos, nos órgãos de controle e na própria ONU.

A direita conservadora no Congresso Nacional vem buscando, em um terceiro projeto (PLS 272/2016), que se encontra na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado, repor dispositivos vetados na Lei 13.260/2016 (Antiterrorismo) para tipificar a ação de movimentos sociais como terroristas. A estratégia de conteúdo vago contida na palavra “terrorista”, que desvia qualquer nuance e elimina contextos, é reeditada para narrar violência contra bens, públicos ou privados, sempre que o conteúdo de manifestações populares contraria interesses dominantes.


Projetos dessa natureza não possuem qualquer intenção outra senão a perseguição e criminalização dos movimentos organizados em luta por seus direitos e de adversários políticos, como publicamente verbalizado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro. De outra sorte, a disseminação da ideia de combater o terrorismo em um país onde nunca houve ataques terroristas afigura-se a venda de uma fantasia para angariar apoio a leis despóticas. Nada parece mais eficaz do que criar ameaças para fomentar a produção de normas que supostamente garantiriam a paz social. A “Guerra ao Terror”, assim denominada a doutrina do presidente estadunidense George Bush, após os ataques do dia 11 de setembro de 2001, serviu de mote para diversas agressões a direitos humanos no mundo, e restou marcada pelo uso de medidas policiais de controle sobre a população do país, e pela ação agressiva contra algumas nações, com ocupações e guerras cujas justificativas nunca se comprovaram.

A usurpação de competências delegando ao ministro da pasta da Justiça poder exacerbado para impor sanções, suplantando o papel do Poder Judiciário e dos demais órgãos, é uma declaração de sentido explícito de um autoritarismo mal disfarçado, um caminho para a tirania e a repressão. Sérgio Moro busca para si mesmo o poder centralizador de decidir quem é terrorista e quem sofrerá as sanções dispostas nas resoluções de um organismo sem qualquer controle de legalidade ou validação pelo sistema interno. Na prática, leva para o Ministério da Justiça o poder de um juiz.

São projetos que apontam para uma deformação estrutural em nossa legislação, com inúmeras possibilidades catastróficas no plano concreto. Positivá-los em nosso ordenamento jurídico é afirmar ao mundo que estamos, também no plano individual, dispostos a conceder e a perder direitos, inclusive os jurídicos e políticos. A invenção de inimigos públicos - como “terroristas” – é um método histórica e comprovadamente eficaz de angariar apoio para respostas autoritárias e inócuas, um engodo para justificar governos e legislações de exceção. 

Tânia Oliveira é assessora Jurídica no Senado Federal
Fonte: CARTA MAIOR

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

PF cumpre mandados de prisão em nova fase da Lava Jato

Foto: EBC

A Polícia Federal (PF) cumpriu ontem (5), no estado do Rio de Janeiro, 11 mandados de prisão e 26 de busca e apreensão na 57ª fase da Operação Lava Jato, batizada de Operação Sem Limites. Dez mandados de prisão preventiva são na capital e um em Niterói.
 
Entre os 26 mandados de prisão também há dois em Petrópolis, na região serrana do Rio, e um em Curitiba.
 
Os presos serão levados para Curitiba, onde responderão por crimes como o de corrupção, organização criminosa, crimes financeiros e de lavagem de dinheiro na 13ª Vara Federal de Curitiba. 
 
Segundo a polícia, as investigações indicam a existência de uma organização criminosa que lesou a Petrobras na área de compra e venda de petróleo e derivados por ou para empresas estrangeiras. O esquema teria operado até meados de 2014, com o envolvimento de funcionários da estatal.
 
O grupo agia para garantir vantagens indevidas a executivos e ganhos acima dos praticados pelo mercado às empresas envolvidas, que também teriam realizado negócios irregulares de locação de tanques de armazenagens. 
 
A Polícia Federal detalhou que as operações de compra e venda de petróleo e derivados eram de responsabilidade da Diretoria de Abastecimento, mas não necessitavam de aprovação prévia da diretoria para ocorrer. 
 
"Circunstância que facilitava sobremaneira a pulverização dos esquemas ilícitos nas mãos de diversos funcionários de menor escalão, vinculados à Diretoria de Abastecimento, e que exerciam suas funções tanto no Brasil quanto nos escritórios da Petrobras no exterior", diz a nota da PF, acrescentando que esses funcionários usavam variações ínfimas nas operações para produzir um montante de recursos ao longo do tempo.

Fonte: potiguarnoticias.com.br
Adaptado pelo eduardovasconcelos2016.blogspot.com

PT representa no MP contra empresas envolvidas no esquema de Whatsapp de Bolsonaro

Parlamentares petistas pedem a quebra do sigilo bancário, telefônico e telemático das empresas envolvidas no esquema de disparo de mensagens e fake news em massa no Whatsapp em favor de Bolsonaro com suposto dinheiro de caixa 2.
Deputados federais do PT protocolaram nesta quarta-feira (5), no Ministério Público Eleitoral (MPE), uma representação em que pedem a quebra de sigilo bancário, telefônico e telemático das empresas e pessoas físicas envolvidas no esquema de disparo de mensagens e fake news em massa no Whatsapp em favor do então candidato Jair Bolsonaro.
Assinada pelos deputados Paulo Pimenta (RS), Henrique Fontana (RS), Luizianne Lins (CE), Paulo Teixeira (SP) e Wadih Damous (RJ), a representação tem como base as denúncias feitas pela imprensa sobre um suposto esquema de caixa 2 entre algumas empresas e a campanha de Bolsonaro. Quando a primeira denúncia veio à tona, em outubro, através de uma reportagem da Folha de S. Paulo, o Whatsapp chegou a bloquear milhares de contas que estariam envolvidas no esquema de disseminação de fake news. Mais recentemente, uma nova reportagem do mesmo jornal denunciou que a campanha do capitão da reserva e as empresas envolvidas utilizaram o CPF de idosos para o registro de chips.
“Pela gravidade da prática verificada, há necessidade de realização urgente de investigações”, escreveram os parlamentares na representação, que cita ainda diversos crimes tipificados no Código Eleitoral e na legislação penal. De acordo com os petistas, “o esquema criminoso tinha o propósito de manipular a opinião pública com perfis falsos, a fim de sabotar o debate na esfera pública para direcionamento massificado de conteúdos favoráveis” ao então candidato.
Uma das empresas que de acordo com as reportagens estaria envolvida no esquema é a agência Yacows, subcontratada pela empresa AM4, que fez a campanha de Bolsonaro.  Outra empresas citadas são a Deep Marketing e a Kiplix, de São Paulo. A campanha de Bolsonaro declarou à Justiça Eleitoral ter gasto R$ 650 mil com a Kiplix, mas os parlamentares do PT suspeitam que a cifra não corresponde à realidade, pois outras candidaturas usaram serviços semelhantes e pagaram quase quatro vezes mais. A tese é que as empresas tenham sido pagas via caixa 2.
Nesta quarta-feira (4), a bancada do PT na Câmara sinalizou que protocolará um pedido de abertura de CPI para investigar o esquema de disparo de mensagens na campanha do presidente eleito.
*Com informações da bancada do PT na Câmara 
Fonte: REVISTA FÓRUM

Reforma trabalhista: 37,3 milhões sem carteira assinada ganham metade do salário


 por Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho -


“É horrível ser patrão nesse país” (Jair Bolsonaro)

***

Bom mesmo, para o presidente eleito, é ser trabalhador sem carteira assinada, sem direitos, ganhando a metade dos empregados formais.

Para ele, que votou a favor da “reforma trabalhista” de Michel Temer, ainda foi pouco o que fizeram. Tem que arrochar mais os trabalhadores para deixar os patrões mais satisfeitos.

Temer prometeu que a sua reforma iria gerar novos empregos, mas aconteceu exatamente o contrário.

O que cresceu foi a informalidade, não o emprego, como mostram os novos dados do IBGE divulgados nesta quarta-feira.

Em 2017, já eram 37,3 milhões os brasileiros trabalhando sem carteira assinada, 1,7 milhões a mais do que em 2016, o ano do golpe.

É a multidão que se vê vendendo churrasquinho e cachorro quente nas esquinas, os peões de obra sem direitos trabalhistas, os camelôs tomando conta das calçadas, as empregadas domésticas que viraram diaristas, os bóias-frias na agricultura.

O total de trabalhadores informais no ano passado já atingia 40,8% de toda a população ocupada que exerce algum tipo de atividade remunerada.
Entre a população de negros e pardos, o índice dos “sem-carteira” é ainda maior, chega a quase metade (46,9%).

Na agropecuária, o carro-chefe da economia nacional, a informalidade chega a 66,8% entre os homens e 75,5% das mulheres.

Carteira de trabalho, que agora querem pintar de verde-amarelo, virou coisa do passado.

Para os patrões, não tem coisa melhor: os “sem-carteira” recebem, em média, 48,5% do que é pago aos com carteira assinada.

Se estão achando que ainda é pouco para arrochar o salário dos trabalhadores, fica só faltando revogar a Lei Áurea.

Não falta muito.

Com a extinção do Ministério do Trabalho, fatiado em secretarias sob o comando de Sergio Moro e do Posto Ipiranga, e da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), se depender da poderosa bancada do agronegócio, onde a informalidade é maior, vai acabar a fiscalização do trabalho escravo.

Quem achar ruim vai ser chamado de “vermelho”, inimigo da pátria, pessimista que torce contra.

Para quem sempre viveu no bem-bom do serviço público, como militar ou deputado, sem precisar bater ponto, o importante é melhorar a vida dos patrões que apoiaram e bancaram suas campanhas.

A nova ordem não está para brincadeiras.

E agora não tem mais essa história de pedir impeachment, batendo panelas e cercando patos amarelos.

Derrubar Dilma foi brinquedo de criança, com um simples peteleco.

Quero ver agora derrubar os generais perfilados em torno do capitão presidente no Palácio do Planalto.

Vida que segue.

Fonte: http://nogueirajr.blogspot.com