| Pepe pediu aos trabalhadores brasileiros que se unam aos trabalhadores da América Latina em uma ação conjunta: "antes de aprender inglês aprendam espanhol" |
Por Tatiana Carlotti
Nesta
semana, em visita ao Brasil, o ex-presidente do Uruguai José “Pepe” Mujica
participou da abertura da etapa paulista do 6° do Congresso do PT e, também, da
II Feira Nacional da Reforma Agrária, organizada pelo Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Na sexta-feira (05.05.2017), ao lado do ex-presidente Lula,
ele pediu aos trabalhadores brasileiros que se unam aos trabalhadores da
América Latina em uma ação conjunta. E aconselhou: “antes de aprender inglês,
brasileiros, aprendam espanhol”.
Destacando a importância do Brasil no destino da América
Latina, Pepe Mujica salientou que “a responsabilidade do país é continental”,
mas que sozinho o Brasil não poderá cumpri-la, assim como os demais países
latino-americanos também não poderão sem o Brasil.
Apontando o conhecimento enquanto recurso inesgotável, o
ex-presidente do Uruguai mencionou a necessidade de unirmos a inteligência e a
esperança de construirmos um mundo melhor e sem egoísmo. Ele também alertou os
brasileiros sobre os perigos do ódio: “a luta de classes não deve ser uma luta
de ódio”.
“Cuidado, companheiros lutadores, há uma armadilha de ódio
plantada pela direita mais reacionária”, afirmou, ao destacar que a direita
fascista quer a “confrontação” para aplacar os direitos acumulados pela luta de
classes. “Nossa luta não é somente a luta pelos oprimidos, mas também a luta
por um mundo que não tenha opressores”, reiterou.
Força coletiva
Salientando a importância dos partidos políticos e da força
coletiva, Pepe Mujica recomendou a plateia que lotou o Sindicato dos Bancários
durante o 6° Congresso: “cuidem do partido. Se querem ter um partido grande,
aprendam a tolerar as diferenças”.
Ele também ironizou a quantidade de partidos políticos no
Brasil (35 registrados oficialmente) - “não pode haver 30 projetos de país” - e
ponderou sobre as alianças partidárias: “política de alianças, mas sabendo até
onde chega esta aliança”.
Em sua avaliação, agora, a agenda é “ganhar as eleições”;
tendo no horizonte, de longo prazo, a luta “pela esperança e pelo direito à
vida para todos e com todos”. “Lutamos pelo poder? Não. Lutamos pelo progresso
da civilização humana, como lutaram muitos antes nós”, complementou.
Pepe Mujica também elencou alguns cenários e desafios das
novas gerações, por exemplo, um cenário de robotização do trabalho em massa e a
necessidade de se instituir uma renda básica de caráter universal.
Ele também mencionou os riscos à democracia trazidos pela
revolução digital. Lembrando que as novas tecnológicas já permitem “resumir com
métodos matemáticos os perfis psicológicos que existem em uma sociedade”,
Mujica alertou, sobre a necessidade de uma campanha sistemática de instrução da
população.
O risco é vivermos um
nível de dominação e de controle jamais visto na história da humanidade. Uma
nova forma de ditadura, “capaz de dominar suas decisões e na qual você entrar
sem se dar conta”.
Desafios
Neste sábado
(06.05.2017), o ex-presidente do Uruguai também participou de uma coletiva à
imprensa independente, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra (MST), minutos antes de sua participação na II Feira da Reforma Agrária
do MST, no Parque da Água Branca, na capital paulista.
Trazendo um
panorama dos desafios da humanidade, Pepe Mujica salientou que, tecnicamente,
“pela acumulação de capital e conhecimentos”, podemos “varrer as misérias
fundamentais que existem na terra”. O homem contemporâneo pode “inventar rios,
construir mares no meio deserto”, porque possuiu “força suficiente e capacidade
para reverter muitos desastres que fez”.
No entanto, essa
mesma civilização, capaz de inventar as mais incríveis tecnologias, domina o
homem. “Nós criamos uma cultura do mercado com uma força impressionante de
concentração de riqueza”, salientou, ao lembrar que “há mais de 30 anos, os
homens da ciência nos disseram o que tínhamos de fazer, mas, por incompetência
política, não fizemos”.
O resultado é que
“estamos contaminando todo o planeta” e vivendo em um mundo que padece pela
“pressão do capital financeiro, das multinacionais e da explosão tecnológica”.
Muito mais importante do que a indústria do petróleo ou a indústria de
automóveis, é conservar o planeta: “faltou luta política para intervir nos
interesses que se interpõem. A crise ecológica é consequência da crise
política”.
Cada vez mais,
alertou Mujica, o mundo vem se organizando em “fenomenais comunidades
continentais”. Daí a importância da união dos países no continente
latino-americano.
Questionado sobre a
questão da terra, ele destacou que “a concentração de terra é concentração de
poder político” e que “sem luta social não há mudança”. Frisou, ainda, que a
luta pela terra engloba a luta pelo conhecimento e pela cultura da terra. “A
terra pertence à humanidade” deve ser “propriedade de uso e de trânsito”.
“Não pode ser um
calvário de pobreza, de tristeza e de melancolia. A terra é um instrumento de
libertação, instrumento daquilo que se faz com paixão e com poesia e não
somente um negócio”, complementou.
Fonte: CARTA MAIOR
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