domingo, 25 de fevereiro de 2018

"Não sou ativista", diz diretora de documentário sobre impeachment

Impeachment
Sem narração nem entrevistas, filme foi feito com base em mais de 400 horas de material
Em entrevista à DW, documentarista Maria Augusta Ramos comenta produção de "O Processo" e recepção no Festival de Cinema de Berlim.
O documentário O processo, sobre o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, teve sessões lotadas seguidas de aplausos e gritos de "Fora, Temer" desde que estreou, na quarta-feira 21, no Festival de Cinema de Berlim.  
O filme da documentarista Maria Augusta Ramos foi feito com base em mais de 400 horas de material e tem 137 minutos, sem narração nem entrevistas. Ele retrata a tramitação doprocesso no Senado – a votação na Câmara é o prólogo – e os bastidores da defesa da ex-presidente.
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Em entrevista à DW, a cineasta comenta o processo de produção e a recepção do filme, que concorre na mostra Panorama da Berlinale, um dos mais importantes festivais de cinema do mundo.

DW: Você já possui um histórico de produções sobre o sistema judiciário brasileiro (Justiça, Juízo e Morro dos Prazeres). Como veio a decisão de filmar esse momento político?
Maria Augusta Ramos: Primeiro, porque esse momento político é um momento fundamental na história do Brasil. É um momento cujas consequências ainda viveremos por muitos anos. Em segundo lugar, porque eu faço filmes sobre realidades, personagens ou situações que me inspiram e me dão tanto angústia, quanto uma necessidade de compreensão. Eu faço filmes para compreender melhor uma situação e me interessa ver e refletir sobre a sociedade através do sistema judiciário, principalmente o teatro da justiça. O impeachment foi um processo, sim, politico, mas político-jurídico. E a proposta era justamente documentar e refletir sobre esse momento histórico através desse teatro da justiça, através desse processo político-jurídico.

DW:E como O processo pretende ajudar na compreensão deste momento histórico?
MAR: O processo do impeachment foi muito confuso, muito caótico. Muitos elementos não vieram à tona, ou foram suprimidos para que não viessem à tona, para que não elucidassem as razões da acusação e das denúncias contra a presidente. Para mim era importante retratar essa dinâmica em toda a sua complexidade, possibilitar que essas outras narrativas também viessem à tona. Era importante dar outros elementos ao público, para que ele pudesse refletir sobre esse momento histórico. Eu acho que um filme, um documentário, não pode ser só a minha visão como ser social e político. Eu não faço filmes para defender uma tese. Se eu soubesse o que dizer, eu diria em duas linhas. Um filme tem que retratar um momento, retratar os argumentos de ambos.

DW: Mas O processo se concentra na perspectiva da defesa.
Não é que seja a perspectiva da defesa: eu acompanho muito mais os bastidores da defesa porque a defesa me deu esse acesso. Eu tive acesso a reuniões da liderança da esquerda, da minoria que era contra o impeachment. A oposição não me deu esse acesso. Se tivesse dado, eu certamente teria filmado mais. Mas eu acho que era importante, sim, apresentar o argumento da direita, o argumento pró-impeachment. Para expor isso, eu escolhi, por exemplo, o senador Cássio Cunha Lima, que tem uma lógica de argumentação inteligente, ou que, pelo menos, faz sentido. Também, a advogada Janaína Paschoal, que, independentemente de você concordar ou discordar dela, teve um papel essencial no impeachment. Essas pessoas são ouvidas e contempladas no filme, mas, sem dúvida, eu tive muito mais acesso à perspectiva da esquerda.

DW: E esse acesso foi pleno?
Eu tive um acesso muito bom ao Senado e à defesa. Em poucas exceções foi pedido que a nossa equipe se retirasse. Eu fui a muitas e muitas reuniões, tive praticamente cem por cento de acesso. Claro que nunca é cem por cento, mas também não acho que isso tenha afetado o filme. É importante dizer que eu tive independência total. Em nenhum momento precisei pedir autorização para terminar o filme. O filme foi exibido depois de pronto.

DW: A ausência de narração ou entrevistas é característica de seus filmes, e com O processo não é diferente. Isso pode ser entendido como uma forma de buscar neutralidade?
Eu não acredito em neutralidade, acho que um filme é uma visão de mundo. Meu filme é o meu statement, é a interpretação da minha experiência cinematográfica vivendo e filmando tudo o que aconteceu – filmando e editando. Mas eu também não estou aqui para explicar, especialmente numa situação tão complexa quanto essa. O que eu quero é possibilitar questionamentos. Me interessa documentar a sociedade em que vivemos através da interação entre as pessoas, através dos gestos, dos discursos, muito mais do que alguém falando para mim o que ele acha de si mesmo. Eu acho que um filme tem que mostrar para aquela pessoa elementos dela mesma que talvez nem ela conheça. A câmera é capaz de ver coisas que nós jamais veríamos. Acho que essa é a capacidade infinita da câmera, do cinema que eu tento fazer.

DW: A estreia no festival foi precedida por uma pequena manifestação pró-Lula e Dilma, com cerca de 20 pessoas, próximo ao Palácio da Berlinale, e seguida de gritos de "Fora, Temer" na sala de cinema. Como você vê a recepção do filme em Berlim?
A recepção é maravilhosa, o filme foi aplaudido de pé. As pessoas se comovem porque é algo ainda muito próximo. Nós não sabemos para onde isso vai, e isso é angustiante e doloroso. Quanto ao protesto, eu acho que as pessoas têm direito de expressar a sua preocupação em relação ao que está acontecendo, mas eu não fui ao protesto e ele também não foi organizado por mim. Eu não sou ativista, eu sou diretora de cinema. E o meu statement é o filme. Essa é a minha contribuição para esse momento que estamos vivendo.

Fonte: Carta Capital

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