Pedro
Ribeiro Nogueira
Nas últimas semanas, com a aproximação
do prazo para aprovação dos Planos Municipais de Educação em todo território
nacional, as câmaras dos vereadores de diversas cidades brasileiras têm se
transformado em um verdadeiro campo de batalha do ódio e da intolerância. Após
longos processos de participação – que envolveram professores,organizações da
sociedade civil e gestores públicos na tarefa de delinear prioridades para a
próxima década – os Planos começaram a ser retalhados nas questões que se
referem à gênero e sexualidade.
Gênero e
Sexualidade
na Educação
na Educação
+Estudo aponta que 77% das meninas acreditam que o machismo impacta seu desenvolvimento+Como Luma superou o preconceito para se tornar a primeira travesti doutora do Brasil+Mulheres atingidas por barragens usam bordado para tecer suas histórias+Entre Saltos ocupa ruas para questionar violações às mulheres no espaço urbano+8 de março: Campanha reivindica cidades seguras para mulheres+Vetado por bancada religiosa, kit “Escola Sem Homofobia” pode ser baixado na internet+16 filmes sobre mulheres, direitos e protagonismo feminino+5 intervenções urbanas de combate à violência contra as mulheres
Em São Paulo, na semana passada, enquanto defensores dos
direitos LGBT (Lésbicas, Gays,Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros)
e ativistas dos direitos das mulheres reivindicam que é papel da escola
discutir gênero e sexualidade, fiéis portanto rosários, cruzes e faixas
expressaram repúdio ao que foi qualificado como “ideologia de gênero”. Casos
semelhantes também se deram emBauru, Uberlândia, Curitiba, Campinas e em outras cidades brasileiras.
“Parece que estamos retrocedendo”, aponta em entrevista
a educadora Maria de Fátima Zanin, que trabalha desde a década de 80 na rede
pública de São Paulo. Professora na EMEI Vila Ema, ela acreditava que esses
temas estavam avançando na sociedade. “Quando eu comecei, não se podia nem
falar em divisão das tarefas domésticas de casa sem gerar protestos dos
meninos. Discutir gênero é mostrar que pode existir igualdade e respeito na
sociedade e na escola. E a gente perde muito tirando isso da escola, que é o
lugar onde se formam diversas relações sociais”, lamenta a educadora.
As afirmações de Maria de Fátima são
especialmente relevantes ao lembrarmos de Alex, 8 anos, morto em 2014 pelo próprio pai por
gostar de lavar a louça e de dança do ventre. Franzino, Alex tomava surras
constantes do pai que o mandava “andar que nem homem”. Não se sabe se Alex era
homossexual, mas relatos de diversos familiares e vizinhos dão certeza de que
seu pai era homofóbico. O irmão mais velho do garoto já havia sido rejeitado
pelo pai, por não ser “másculo o suficiente”. Após um dos “corretivos”, o
fígado de Alex se rompeu, ocasionando sua morte.
A violência deste caso é ainda mais trágica se
pensarmos como ela poderia ter sido evitada: Alex vivia com o pai no Rio de
Janeiro, porque sua mãe havia decidido não matriculá-lo na escola, com medo da
reação dos outros estudantes ao jeito do filho. Ao sair de Mossoró (RN) para
morar com o pai, a intolerância terminou por fazer mais uma vítima.
Por episódios como esse, causados pelo preconceito
e ódio sistêmico que fomentam a ignorância, o obscurantismo e a violência,
listamos sete razões que revelam porque a educação brasileira deve sim se preocupar
com as questões de gênero e sexualidade:
1) Gênero, sexualidade e identidade de
gênero não são criações ideológicas. Eles existem.
A discussão sobre gênero nas políticas educacionais
parte de uma falácia cruel: a de que gênero, sexualidade e identidade de gênero
são invenções ideológicas. Hoje em dia, é muito comum ver a desqualificação de
determinadas visões de mundo como sendo “ideológicas”, ou seja, um ideário sem
ancoragem na realidade.
Em resposta a essas afirmações, a
Associação Brasileira de Antropologia (ABA) publicou o “Manifesto pela igualdade de gênero na educação: por uma escola
democrática, inclusiva e sem censuras”, assinado por 113
pesquisadores e grupos de estudos, que pretende desmistificar esses argumentos.
Confira abaixo alguns pontos:
“Ao contrário de “ideologias” ou “doutrinas”
sustentadas pela fundamentação de crenças ou fé, o conceito de gênero está
baseado em parâmetros científicos de produção de saberes sobre o mundo. Gênero,
enquanto um conceito, identifica processos históricos e culturais que
classificam e posicionam as pessoas a partir de uma relação sobre o que é
entendido como feminino e masculino. É um operador que cria sentido para as
diferenças percebidas em nossos corpos e articula pessoas, emoções, práticas e
coisas dentro de uma estrutura de poder. E é, nesse sentido, que o conceito de
gênero tem sido historicamente útil para que muitas pesquisas consigam
identificar mecanismos de reprodução de desigualdades no contexto escolar (…)
Quando se reivindica, então, a noção de “igualdade
de gênero” na educação, a demanda é por um sistema escolar inclusivo, que crie
ações específicas de combate às discriminações e que não contribua para a
reprodução das desigualdades que persistem em nossa sociedade. Falar em uma
educação que promova a igualdade de gênero, entretanto, não significa anular as
diferenças percebidas entre as pessoas (o que tem sido amplamente distorcido no
debate público), mas garantir um espaço democrático onde tais diferenças não se
desdobrem em desigualdades. Exigimos que o direito à educação seja garantido a
qualquer cidadã ou cidadão brasileira/o e, para isso, políticas de combate às
desigualdades de gênero precisam ser implementadas. (…)”.
Gisele Cristina, da organização Católicas pelo
Direito de Decidir, no debate “Porque discutir gênero nas escolas”, que
aconteceu na Câmara dos Vereadores de São Paulo, no dia 17/6, também rebateu as
acusações de que gênero é uma ideologia. “É como se isso não fosse amparado por
anos e anos de pesquisa, como se alguém tivesse olhado pra nossa sociedade e
falado ‘ah, quero discutir gênero’. A realidade não é bonita, ela nos obriga a
discutir isso, seria muito melhor se não precisássemos, mas é uma relação de
poder que mata pessoas, que violenta mulheres, que subjuga milhões de
brasileiras.”
2) Violência contra a mulher está
generalizada na sociedade. E na escola também.
Em maio deste ano, uma menina de 12 anos foi estuprada dentro de
uma escola na capital paulista por um menino de 14, com auxílio de
dois outros meninos. Nas periferias dessa mesma capital, vídeos do Youtube e
correntes de Whatsapp propagam as Top 10, um ranking no qual meninas são listadas e
insultadas como “vadias, piranhas” e dezenas de outros adjetivos perversos. As
afetadas por essa prática tentam muitas vezes ou suicídio ou abandonam suas
rotinas escolares. Uma pesquisa recente da Agência É Nois revelou que 77% das
meninas acreditam que o machismo impacta seu desenvolvimento.
Fora da escola, 48% das mulheres
agredidas foram violentadas em suas residências, segundo dados do PNAD/IBGE de
2009, 3 em cada 5 mulheres relatam ter sofrido violência
dentro de relacionamentos e 56% dos homens se reconhece como agressor em algum
momento da vida. Em 2014, o Brasil recebeu 52.957 denúncias de violência contra a mulher. Na última década, cerca de
44 mil mulheres foram assassinadas no país. OMapa da Violência 2013: Homicídios e Juventude no Brasil mostra
que os homicídios de mulheres aumentou 17,2% entre 2001 e 2011, ano em que 4,5
mil mulheres foram assassinadas no Brasil.
A enumeração acima é curta perto do tamanho da
violência de gênero que atinge o país. A lista poderia crescer infinitamente. A
escola, como espaço onde essa sociabilidade se forma e pode ser transformada,
deve ficar alijada do debate de gênero e de como sua construção cultural
contribui para o crescimento dessa violência?
3) O mesmo se dá com a violência
homo/lesbo/transfóbica
Ser homossexual ou transsexual no
Brasil é um martírio. Desde cedo, qualquer comportamento que fuja do que é
considerado “normal” é tratado com desprezo, nojo, violência física e
psicológica, como no caso do garoto Alex. Mas a violência vai além: em março
deste ano, Peterson Ricardo de Oliveira, 14 anos, morreu após ser espancado em
uma escola pública da Grande São Paulo. O motivo? Seus pais eram gays.
O Grupo Gay da Bahia (GGB), em seu relatório de
2013-2014, mostrou que um gay é morto a cada 28 horas no país – foram 312
assassinatos de pessoas sexualmente diversas em 2013. O relatório segue com
mais dados chocantes:
“O Brasil confirma sua posição de primeiro lugar no
ranking mundial de assassinatos homofóbicos, concentrando 44% do total de
execuções de todo o planeta. Nos Estados Unidos, com 100 milhões a mais de
habitantes que nosso país, foram registrados 15 assassinatos de travestis em
2011, enquanto no Brasil, foram executadas 128 “trans”.O risco, portanto, de
uma trans ser assassinada no Brasil é 1.280% maior do que nos Estados Unidos.”
4) Violência de gênero e preconceito causam evasão
escolar
“Quando estava na sétima série”, relata o ativista
LGBT Bruno Maia, conhecido como Todd Tomorrow, no debate sobre Homofobia nas
Escolas, “deixei de ir à escola para evitar a perseguição. Meus pais saíam de
casa e eu dava voltas no quarteirão para evitar ir. Fui reprovado e só consegui
voltar a estudar quando mudei de colégio”.
Ciente de que seu caso é um entre
milhares, Maia não titubeia: é necessário termos Planos Municipais de Educação
que enfrentem a discriminação e a evasão escolar de LGBTs. Entre populações
trans, as taxas de evasão são ainda maiores, o que limita as opções de vida
destes indivíduos, apartadosdos estudos e do mercado de trabalho pelo preconceito.
“Discutir gênero na escola é conscientizar o outro
da diversidade que nos constitui. Eu só tive oportunidade de voltar à escola
mais de vinte anos depois graças ao Programa Transcidadania, da prefeitura de
São Paulo, que vem lutando para tirar nós, travestis e transexuais, de uma
situação de invisibilidade. Enfrentamos muitos preconceitos e, por isso, a maioria
de nós se encontra em situação de prostituição. Hoje estou no caminho da
educação, do trabalho, e sei, mais do que nunca, que o lugar da travesti não é
na esquina, mas onde ela quiser estar”, ressalta a travesti Aline Marques.
A visão de Aline é compartilhada por Ester Lisboa,
assistente social e coordenadora da Pastoral da Mulher e Justiça de Gênero do
Conselho Latino-americano de Igrejas. “Os alunos e alunas que se reconhecem
como trans são invisíveis nas escolas. Não são chamados pelo nome social e são
forçados a deixar a escola. Mesmo assim, os professores e os educadores não se
comovem. Por que as pessoas cis-gêneras têm garantido direito à vida e eles e
elas não? Por que essa diferença? Isso precisa ser discutido para que possamos
mudar essa realidade”, propõe.
5) Não discutir gênero vai contra
diversos tratados internacionais assinados pelo Brasil
Bruno Maia listou, em debate na Câmara dos
Vereadores de São Paulo, algumas das dezenas de conferências internacionais,
tratados, convenções e acordos que estarão sendo negligenciados caso os Planos
Municipais de Educação excluam os termos ligados à gênero:
“Um PME que contemple as discussões de
gênero diz muito mais respeito às mulheres, que são 50% da população. Discutir
gênero nas escolas significa questionar a violência contra a mulher e
desconstruir a mentalidade machista. Questionar em sala de aula a razão delas
terem salários menores e espaço reduzido nos parlamentos. [Questionar isso] é,
inclusive, ir na direção de documentos internacionais para a promoção de
direitos das mulheres que vai desde a Carta das Nações Unidasa Declaração dos Direitos Humanos, passando pela Convenção Interamericana sobre a Concessão dos Direitos Civis às
Mulheres que outorgou às mulheres os mesmos direitos
civis que gozam os homens, [negar o gênero] é passar por cima daConvenção sobre os Direitos Políticos da Mulher, de
1953, aConvenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 1951,
que dispõe sobre igualdade de remuneração entre gêneros, a Convenção da OIT de
1952 que versa sobre o amparo materno, a Convenção da OIT de 1958 que
dispõe sobre a descriminação em matéria de emprego, a [resolução da]156 da OIT de 1981, que estende aos homens a
responsabilidade sobre a família, a Convenção Americana de Direitos Humanos de São José, a Convenção Mundial de Mulheres da Cidade do México,
que reconheceu o direito da mulher à integridade física, inclusive, à autonomia
de decisão sobre o seu corpo e o direito à maternidade opcional, aConvenção para Eliminar Todas as Formas de Discriminação sobre a
Mulher, de 79, assim como as conferências mundiais sobre a
mulher de Copenhague e Nairóbi, de 80 e 85, também aConvenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a
Violência Contra a Mulher, que aconteceu em Belem do Pará de 1994 e
uma série de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil em nome da
igualdade de gênero. Ai você vê nessa Casa mulheres e meninas recrutadas em
suas comunidades religiosas mostrando cartazes que dizem não ao gênero.”
6) O machismo impacta o aprendizado e a
auto-percepção de meninos e meninas
A forma como os alunos são avaliados e
percebidos pelos adultos impactam fortemente a percepção que têm de si. Embora
diversos papéis de gênero sejam passados de geração em geração de maneira
explícita, existem preconceitos invisíveis, currículos ocultos da educação. Um
deles fomenta a ideia de que os meninos são mais talentosos para Exatas e serão
melhores cientistas, engenheiros e técnicos de informática. Mas uma pesquisa recente, divulgada pelo The New York Times, ajuda
a desconstruir este mito. Veja abaixo um trecho do texto do
site Toda Criança Pode Aprender.
“Pensando sobre a origem dessa ausência
feminina nas áreas de exatas, pesquisadores da Universidade de Tel Aviv conduziram um
experimento com 3 grupos de alunos, da 6ª série até o final da
escolaridade. Cada aluno fez duas provas idênticas sobre uma série de matérias,
e as provas foram corrigidas por 2 grupos de professores: um que sabia os nomes
dos alunos (e, portanto, era capaz de deduzir o sexo deles) e um que corrigiu
provas anônimas.
Enquanto as respostas dos alunos eram idênticas, as
correções foram desiguais. O grupo de professores que sabia os nomes deu notas
maiores aos meninos; a correção anônima, ao contrário, deu notas maiores para
as meninas. Esse efeito, porém, só ocorreu com as provas de Matemática e
Ciências – as avaliações de Inglês, por exemplo, tiveram correções parecidas.
A conclusão dos pesquisadores foi que, em
Matemática e Ciências, os professores superestimaram as capacidades dos meninos
e subestimaram as das meninas, e que isso produz um efeito duradouro. Quando
estes grupos de alunos observados estavam próximo à formatura, poucas meninas
demonstraram interesse pelas áreas de Ciências Exatas.”
Mas a desigualdade de gênero também
impacta os meninos. Estudos mostram que o fracasso
escolar e a evasão de jovens estão ligados a referenciais de
masculinidades difundidos socialmente. “Uma identidade masculina baseada na
agressividade e na indisciplina tem cada vez mais afastado os meninos dos
bancos escolares (37,9% deles, segundo dados do IBGE em 2011),
negando-lhes seu direito à educação e reproduzindo uma cultura da violência”,
afirma carta publicada pela ABA.
Certa vez, o astrofísico Neil deGrasse Tyson, foi
perguntando se existem diferenças genéticas entre meninos e meninas que
impactam a presença de mulheres na academia e nos laboratórios. Confira abaixo a resposta que ele deu:
7) Preconceito não tem nada a ver com
religião. Você é que está sendo intolerante.
“É preciso discutir gênero na educação
principalmente pelo preconceito que as crianças sofrem em relação à sexualidade
e ao machismo. As crianças que demonstram em sua identidade características não
convencionais sofrem desde muito cedo, e os meninos também acabam por
desenvolver ideias machistas desde cedo.”
A frase acima é do pastor José Barbosa Júnior. Para
ele, “discutir gênero é uma luta pela dignidade humana e a entendemos como uma
luta cristã”. Barbosa defende ainda que “essa questão deve estar acima de
qualquer doutrina para que possamos garantir uma educação laica”.
Assim como Barbosa, colocamos nessa matéria falas
de Ester Lisboa, que é anglicana e protestante, e Gisele Cristina, católica e
feminista. Por trás da suposta rixa entre religiosos e ativistas feministas e
LGBTs, as polêmicas recentes envolvendo a educação nos colocam reflexões
essenciais: somos capazes, enquanto sociedade, de enfrentar nossos abismos?
Somos capazes de acolher as pessoas que sofrem violências cotidianas? De criar
um ambiente escolar capaz de olhar para os desafios de nosso tempo e propor
outra sociabilidade, pautada pela solidariedade e pela empatia?
Como faremos para impedir que Alex, Lucas, Laura,
Veronica, Cláudio, Izabelly, Sandoval, Gilmar, André, Kauane, Rafael e tantas
outras e outros padeçam diariamente? Por que não começar desde cedo a
desconstruir padrões que geram violência e exclusão? Essa é a pergunta que
deixamos para os parlamentares de todo o país.
Fonte: http://portal.aprendiz.uol.com.br/



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