Por Eliane Juraski Camillo
Ainda é o professor que influencia, marca, convive
com o adolescente/jovem e tem sobre ele grande influência.
Minha reflexão de hoje é sobre um dos temas que
são objeto de minha atenção ultimamente: os intelectuais e sua importância na
atual conjuntura sócio-político-econômica brasileira, marcada pelo
conservadorismo e pela supressão de direitos trabalhistas e sociais. Há algum
tempo atrás, andei lendo Gramsci e, partindo de seu pensamento, pude tirar
algumas conclusões frutíferas sobre o assunto, as quais vinham ao encontro das
minhas interrogações. Segundo ele, contrariando um pensamento recorrente de um
grande número de pessoas – as quais eu me incluía – intelectual era aquela
pessoa inteligente, entendida em algum assunto, com elevado grau de instrução
e, impreterivelmente, que usasse terno e gravata. Aliás, permitindo-me um
aparte, quão curioso é o fato de que, em nossa sociedade, qualquer pessoa bem
trajada, ainda mais com terno e gravata, é logo associada a uma pessoa de
inteligência e caráter, alguém em quem se pode confiar. Um intelectual.
Pois
bem. Gramsci afirma que o mundo não está cindido entre intelectuais e não
intelectuais e, vai mais longe, declarando que qualquer mortal poderá vir a
sê-lo, mesmo os que não chegam a vestir um terno. O pensador italiano vaticina
que existem duas possibilidades de existência de intelectuais: uma que já é
preexistente, já está dada e corresponde justamente aquele percentual de
pessoas que descrevi acima, bem instruídas.
A
outra parcela, porém, é criada organicamente dentro de cada ramo de atividade, ou
seja, cada categoria cria seus intelectuais. E, nessa perspectiva, não apenas
as profissões que exigem maior tirocínio mental terão seus intelectuais, mas
também aquelas que se caracterizam por um maior esforço manual criarão a sua
elite intelectual.
Sim,
pasmem, os intelectuais não são oriundos apenas das camadas que desempenham
funções intelectuais, mas os trabalhadores manuais também criam seus
intelectuais, afinal de contas, nenhuma atividade, por mais repetitiva e
desprovida de reflexão que seja, exige um mínimo de raciocínio. Sem contar que,
fora de seu exercício laboral, toda pessoa exerce ou pode exercer outras
funções que exigirão tomadas de decisões, posicionamentos que, em maior ou
menor grau, confluirão para a construção de uma visão de mundo, onde alguns
valores são preferidos; outros, preteridos.
Tudo
isso me foi fantástico. Ler Gramsci permitiu-me romper com aquela ideia
burguesa, seletiva, excludente de que somente os “bem-educados”, os
“bem-nascidos” poderiam ser intelectuais. Sim, os trabalhadores braçais,
historicamente desprovidos de maior fulgor em seu fazer, também podem ser
intelectuais. Também têm a possibilidade de converterem-se em sujeitos
históricos concretos pela difusão do seu saber.
Contudo,
satisfeita com a (nova) possibilidade, me inquietava ao constatar que os
“grandes homens” estão em extinção no nosso tempo líquido. Se mais pessoas têm
a possibilidade de serem intelectuais, cadê eles? Onde estão os grandes
autores? Os que anunciam novas (e consistentes) teorias e ideias à humanidade?
Pois, ao que me parece, salvo algumas poucas exceções, continuamos ainda a
seguir, aprender, discutir, ensinar e repassar visões de mundo há muito
passadas, sendo que o mundo e suas perguntas muito têm mudado ultimamente. Onde
estão os novos intelectuais que darão conta disso?
Ora,
juntando o que Gramsci escreveu com o que tenho lido de Foucault, consigo
deslindar o intelectual contemporâneo e o seu papel. Foucault diz que o
intelectual universal, que descrevi acima e do qual tenho sentido falta, é
mesmo um tipo raro em nossos dias, em função de que o mundo está em um estado
avançado de acumulação de conhecimento e, sobretudo, porque vivemos realidades
complexas e multifacetadas, as quais não podem ser abarcadas por apenas uma ou algumas
teorias. A realidade sempre desborda, sempre é mais, sempre tem mais variáveis
do que se supõe à priori.
No
lugar do intelectual universal surge o intelectual específico, aquele que, em
seu recorte espacial/geográfico, na sua prática diária, é capaz de enxergar os
acontecimentos com outros olhos, não com o olhar apressado de quem precisa
passar pela superficialidade dos acontecimentos em nome da necessidade de
trabalhar, trabalhar, trabalhar; mas aquela pessoa dotada de uma dose extra de
sensibilidade, que consegue ver a luz de nosso tempo sem deixar-se cegar por
ela, visualizando também os pontos obscuros, as penumbras.
Em
outras palavras, quem tem a fineza de espírito para perceber as limitações, as
potencialidades e, principalmente, aquele que arrisca transformar as limitações
em possibilidades de futuras potencialidades e o que percebe nas
potencialidades futuras limitações. Esse novo intelectual, felizmente, poderá
ser qualquer pessoa. Um trabalhador braçal também, recordo. Poderá não ter o
fulgor dos então “grandes homens”. Poderá não ter um séquito de
seguidores/bajuladores. Talvez suas conjeturas tenham aceitação de um mínimo
número de pessoas. E, certamente, encontrará sérias dificuldades em pôr em
prática o que pensa, devido a amarras globais. Mas, mesmo assim, não deixará de
ser um intelectual e sua contribuição revolucionária não será minorada.
Diante
disso, me vem à mente a singularidade da figura do/a professor/a como
intelectual específico, o qual, nos dias de hoje, mesmo diante de toda sorte de
desvalorização, mesmo diante da bravata da Lei da Mordaça, a qual, ao contrário
do que anuncia, objetiva instaurar a escola de apenas um partido (o hegemônico,
obviamente), com efeito nefasto sobre a autonomia e a voz docente, já que tem o
intuito, inclusive de criminalizar aqueles cuja atuação seja um antídoto para o
analfabetismo político; é ainda ele/a, salvo todas as imposições advindas dos
órgãos hierarquicamente superiores, que faz, no “chão da sala de aula”, a
educação. E, mesmo intimidado por essa racionalidade que o país está imerso,
desacreditado, em muitos ensejos, pelos adolescentes/jovens por não mais
corresponder à única fonte de conhecimento, já que este se encontra à mão de
qualquer mortal, democratizado em seu acesso; é ainda o professor que
influencia, marca, convive com o adolescente/jovem e tem sobre ele alguma
(grande) influência. E o que este intelectual específico precisa, hoje, não é
dar respostas, dizer o que deve ser feito. Tampouco “conscientizar” alguém.
Deve, sim, perceber-se nas teias de poder nas quais está enredado, enxergando
que, o que precisa mudar na educação – assim como na sociedade – não é o regime
de verdades vigente, mas o processo pelo qual algo se torna ou não verdade,
para que então a história escrita nos livros, lida, estudada, aprendida e
repassada não seja apenas a história dos vencedores, mas as várias histórias,
as múltiplas versões, para que cada um possa perceber qual é a sua história.
Qual o/a limita e qual tendo como estandarte é possível avançar.
Fonte: Carta Maior