quinta-feira, 5 de julho de 2018

III Guerra Mundial: ficção e realidade, por Fábio de Oliveira Ribeiro

No Mundo Antigo a ficção tinha a finalidade de humanizar os povos. Isso pode ser visto claramente na Ilíada, em que as tragédias familiares de Adrômaca (esposa de Heitor, morto em combate) e de Clitemnestra (esposa de Agamemnon, cuja filha é sacrificada pelo próprio pai), simbolizam as tragédias dos dois povos em guerra. Pertencentes a campos opostos, ambas sofrem profundamente os efeitos do mesmo conflito a que não deram causa. Adrômaca e Clitemnestra são irmãs na dor e esse fato predispõe os leitores da Ilíada a questionar a guerra e sua futilidade.
A ficção perdeu a capacidade de humanizar seus consumidores no mundo moderno. Isso fica mais claro quando levamos em conta os filmes norte-americanos. 
Em Elysium (2013) apenas as pessoas muito ricas e aqueles que as servem tem acesso às tecnologias médicas mais modernas, capazes de curar doenças graves e reconstruir corpos mutilados. O filme termina no momento em que a assistência médica se torna um direito universal. Na vida real, porém, a medicina foi totalmente mercantilizada. Apenas quem pode pagar tem acesso aos tratamentos médicos. A desumanização da dor atingiu um ponto em que já começamos ver pessoas gravemente feridas pedir para que as pessoas não chamem uma ambulância com medo de não ter condição de pagar a conta.
Como em vários outros filmes do gênero, Elysium evidencia que a ficção se transformou em mercadoria produzida em massa de maneira rentável. Sua finalidade é apenas proporcionar uma fuga temporária da realidade brutal. A ficção não precisa nem mesmo manter qualquer relação com a realidade. Ela perdeu a capacidade de humanizar seus consumidores. O resultado é trágico: a realidade não pode mais se reconciliar com a humanidade através da ficção como ocorria na Antiguidade.
Os lamentos de Adrômaca e Clitemnestra se tornaram cômicos num mundo que convive com a brutalidade da guerra como se ela fosse algo inevitável, necessário ou normal. Todos os dias nós consumimos, através da internet, fotos e filmes de brutalidades inenarráveis cometidas pelo US Army no Oriente Médio, pelas Forças de Defesa de Israel em Gaza ou pela PM/RJ e pelo Exército Brasileiro no Rio de Janeiro como se tudo aquilo não fosse real ou, pior, como se a dor alheia não pudesse mais nos afetar. Os lamentos das mães das crianças sírias despedaçadas pela guerra são incapazes de nos despertar do torpor em que fomos condenados a viver.
Nós dizemos que somos mais civilizados do que os gregos da antiguidade. Mas a verdade é que a modernidade nos desumanizou totalmente. Tanto que nos últimos anos https://metro.co.uk/2018/04/13/russias-state-tv-tells-people-prepare-wor... https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43771683">a inevitabilidade de uma guerra nuclear tem sido intensamente discutida e alguns milionários norte-americanos acreditam que poderão sair ilesos dela. Quando sacrificou a filha para conjurar os deuses, Agamemnon marcou um encontro com a glória em Ilion (Tróia) e com a morte em sua própria casa. Nosso encontro com a III Guerra Mundial não será fictício ou glorioso, nem será capaz de produzir um poema épico.
Fonte: jornalggn.com.br

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