UNIDADE JÁ
Começa a desfazer-se a letargia da
sociedade civil no isolamento imposto pela epidemia de coronavírus. A
democratas cumpre erguerem-se para arrostar as repetidas agressões do
presidente Jair Bolsonaro à ordem constitucional.
Multiplicam-se os manifestos em favor da
democracia. Adversários eleitorais e antípodas ideológicos põem divergências e
ressentimentos à parte para defender a liberdade de expressão e outros direitos
fundamentais contra os quais ladra uma minoria de fanáticos a levantar bandeiras
extremistas.
Iniciativas como Estamos Juntos, Basta! e Somos 70 por cento ganham adesões rapidamente.
Centenas de integrantes do Ministério Público Federal se insurgem contra a
prostração do procurador-geral, Augusto Aras, perante os mármores do Planalto.
Pesquisas de opinião registram elevação contínua da
reprovação ao presidente, com 43% dos entrevistados a avaliar seu governo
como ruim ou péssimo. Rejeitam a ideia de armar
seguidores nada menos que 72% dos ouvidos; 52% repudiam o aparelhamento dos
órgãos de governo por militares.
Em que pesem obstáculos para mobilizar a maioria
não ensandecida do país, em meio à sabotagem dos esforços para conter a
mortandade da Covid-19, a opinião pública se desanuvia com a lembrança do
vendaval Diretas Já, lufada que varreu a ditadura militar.
Urge, p. ex., desmontar a interpretação liberticida
de que o artigo 142 da Constituição daria autorização para as Forças Armadas
investirem contra o Judiciário ou o Legislativo, a mando do Executivo.
Estultices do gênero merecem enérgica resposta da sociedade.
O presidente e sua família cevada no baixo clero parlamentar se encontram
enrascados em múltiplas frentes policiais e judiciárias, a demandar
esclarecimentos.
Das rachadinhas à promiscuidade miliciana e do
aparelhamento da Polícia Federal ao desmonte da capacidade de reação diante da
epidemia e da devastação ambiental, proliferam as condutas suspeitas ou
escandalosas sobre as quais um gabinete
de ódio busca erguer cortinas de fumaça tóxica.
Se faltam votos para deslanchar uma investigação de
crime de responsabilidade, essa é tão somente a situação do momento. Os
manifestos são demonstração de que existem setores vigilantes.
Restam ainda os flancos abertos no Supremo Tribunal
Federal e no Tribunal Superior Eleitoral —este com a revelação de malfeitos do
exército de robôs informáticos mantidos por uma camarilha de empresários
aliados.
Bolsonaro está cercado, mas o bastião da
Presidência é forte. Há um caminho duro pela frente para quem se reúne em torno
da Carta. (editorial de 02/06/2020 da Folha
de S. Paulo).
"Siset, tu não vês a estaca/ a que estamos atados?/ Se não nos livrarmos dela,/
não poderemos caminhar!/// Se a puxarmos, ela cairá/ e não muito
mais durará,/ decerto tomba, tomba, tomba,/ bem podre ela
já está./// Se eu a puxar com força aqui/ e tu a
puxares com força aí,/ decerto tomba,
tomba, tomba/ e poderemos
nos libertar"



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