
A REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE
DE LÊNIN, TROTSKI E STALIN
DE LÊNIN, TROTSKI E STALIN
.
Por Paulo Francis
Meu título
causará surpresa em certos círculos, pela inclusão do nome de Trotski, afinal
desalojado do poder em 1925, mas ela será explicada. Trotski é, na minha
opinião, o autor intelectual da Revolução Soviética, o que ele próprio nega,
modestamente, na sua monumental obra A revolução russa, atribuindo
a honra a Lênin e às massas.
E Trotski
foi o principal inspirador de Stalin, o homem que o destruiu, um paradoxo
aparente, intolerável para leninistas, trotskistas e stalinistas. Tenho muito a
explicar, reconheço.
Antes,
porém, eu diria que a Revolução Soviética é um dos três acontecimentos
decisivos no que chamamos pitorescamente de civilização cristã, na cultura (Kultur) que emergiu do Império Romano a oeste de
Constantinopla, ou seja, a cultura ocidental.
O primeiro é
a Reforma de Lutero, que destroçou a coerência ideológica do
cristianismo. O segundo é a Revolução Francesa, a partir de
1791, como decorrência do governo de Robespierre e Saint-Just (que
me lembram extraordinária e respectivamente Lênin e Trotski). A Revolução
Soviética é o mais profundo e cismático.
A Reforma é
um subproduto do nascimento do nacionalismo e do capitalismo. A Revolução
Francesa eliminou as últimas travas feudais à explosão capitalista
e liberal, mas é argumentável que a beneficiária central, a burguesia, já
controlava os meios de produção quando tomou o poder no século XVI, na
esteira da Revolução Industrial, que a nobreza e o clero se recusavam
obstinadamente a aceitar como determinante do futuro, que está conosco até
hoje, um decadente presente.
A Revolução
Soviética surgiu do nada. Em nação alguma do mundo existia a condição sine qua non da tomada do poder pelo proletariado, que Marx e Engels haviam
previsto e postulado em extensas análises. E, especificamente, haviam
vetado países sem uma economia de abundância, industrial, sem uma numerosa
classe operária urbana capaz de administrar os meios de produção.
A Rússia de
1917 era semifeudal, possuía quando muito 3 milhões de operários, de uma
população de 85% de camponeses, habituados secularmente a uma férrea autocracia
lastreadaespiritualmente pela reacionaríssima Igreja Ortodoxa.
Marx achava possível revoluções socialistas na Alemanha, Inglaterra e EUA, que ele e Engels começavam a estudar, antes de morrer. Na Rússia, por escrito, decretaram um inequívoco nyet.
Marx achava possível revoluções socialistas na Alemanha, Inglaterra e EUA, que ele e Engels começavam a estudar, antes de morrer. Na Rússia, por escrito, decretaram um inequívoco nyet.
| Domingo sangrento (1905): tropas do czar massacram manifestantes |
Considerariam
a tese de Mao Tsé-tung ou a do líder vietnamita Ho Chi Minh grotesqueries, porque se basearam no campesinato à exclusão de um inexistente
operariado urbano. Logo, a frase – e clichê – revolução marxista, muito usada pela nossa imprensa popular e por polemistas
anticomunistas, deveria ser arquivada de vez. É um mito. Na hipótese mais
caridosa, permanece inédita.
Lênin, ao
contrário da lenda, aceitava a análise de Marx e Engels. Na sua luta contra
os mencheviques, o centro da discórdia não era, não importa o que diga a
propaganda comunista subsequente, que os bolcheviques pretendiam instalar
o comunismo na Rússia e que os mencheviques desejavam primeiramente que o
país passasse por uma fase capitalista.
A briga
era entre a concepção leninista do partido único, de revolucionários
profissionais, a vanguarda, e
a visão menchevique de um partido aberto a todos que simpatizassem com
ideias socialistas. O chamado eurocomunismo de hoje é o retorno do reprimido menchevique à arena polêmica do comunismo.
Trotski
favorecia os mencheviques no debate com Lênin, prevendo, corretamente, que
a vanguarda levaria a uma ditadura, incompatível com o socialismo. Discordava,
porém, dos grupos de Lênin e Martov (o líder menchevique) quanto à
possibilidade de revoluções comunistas no que hoje chamaríamos de nações
subdesenvolvidas.
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| Estação Finlândia: a famosa volta de Lênin à Rússia em 1917 |
Em 1905, ele
e Parvus (brilhante teórico que depois se autodegradou, servindo ao Kaiser
na 1ª Guerra Mundial) desenvolveram a tese da revolução permanente, que, de relevante ao tema deste artigo, propõe que uma revolução
socialista em país tão atrasado como a Rússia seria o estopim que
conflagraria todo o mundo desenvolvido, levantando as classes operárias
dos ditos, que, no poder, iriam em socorro da atrasada Rússia e, em pouco
tempo, unidas, estabeleceriam o socialismo em escala mundial.
Em 1905,
isso sugeria quimera ou, no máximo, especulação interessante, típica do
brilho inegável de Trotski. Em 1917, porém, com as principais nações
capitalistas da Europa arrasadas pela guerra, com levantes de marinheiros
alemães e soldados franceses em reação ao morticínio, Lênin começou a dar
crédito a Trotski.
Em todos os
livros contemporâneos dignos de créditos (o do menchevique Sukhanov é o
melhor), quando Lênin desembarcou na Estação Finlândia, em Petrogrado,
cuspindo fogo, o comentário dos outros bolcheviques foi que Lênin se
transformara em trotskista. Os líderes
bolcheviques, Stálin, Sverdlov, Kamenev e Zinoviev, estavam na linha
marxista tradicional, de colaborar com os partidos progressistas que emergiram
depois da queda do tzarismo em fevereiro, objetivando a entrada da Rússia
na revolução capitalista.
Se Lênin se
tornou trotskista, Trotski se converteu em leninista, isto é,
aceitou os direitos à exclusividade revolucionária dos bolcheviques. Desse
acordo nasceu a liderança real da Revolução Soviética.
Vale notar
que, até julho de 1917, a maioria do Comitê Central do Partido Bolchevique
ainda estava contra a tese de tomada imediata do poder proposta por
Lênin e Trotski. Foi uma mudança no comportamento das massas bolcheviques,
que se insurgiram nas ruas, que convenceu o resto da liderança
comunista.
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| Kamenev e Zinoviev, os fura-greves da revolução. |
Ainda assim,
à última hora, Kamenev e Zinoviev, bolcheviques da velha guarda,
alcaguetaram o plano de insurreição de Lênin e Trotski, o que levou Lênin
a chamá-los de furadores de greve e a
querer expulsá-los do Partido, do que foram salvos pela rara concordância
e união de Trotski e Stálin. A tese de Trotski pressupunha que o Outubro
soviético fosse seguido da revolução alemã.
Isso se
tornou axiomático entre os bolcheviques. Ninguém acreditava que a precária
Revolução Soviética se mantivesse em pé sozinha.
Bem, em
1918, o levante spartakista de
Rosa Luxemburgo e Karl Leibknecht fracassou na Alemanha, traído pelos
sociais-democratas, aliados ao Exército imperial. Em 1923, nova
tentativa redundou em semelhante fracasso.
Até levantes
em países subdesenvolvidos (Hungria) deram em nada. Em 1920, a tentativa
do Exército Vermelho de levar a revolução sob ponta de baioneta à Polônia
terminou em derrota. Data desse período o dilema da liderança bolchevique
que terminaria resolvido no stalinismo.
| Gênio militar de Trotski salvou a revolução |
Lênin e
Trotski subestimaram a capacidade do capitalismo vigoroso e intocado pela
guerra dos EUA de revitalizar a decadente Europa burguesa. Não esperavam
que os imperialismos pobres da Inglaterra e França tivessem forças de
organizar uma intervenção na Rússia que terminaria envolvendo 22 países,
acabando de arrasar o país, já devastado pela Guerra de 1914 e por viver
na idade da pedra.
Essa guerra civil, cujo cerne era a própria reação interna, custou a vida de 13 milhões de pessoas. Foi a guerra civil mais violenta da história e, no entanto, existe um mínimo de análise e de compreensão sobre o efeito que teve na psique dos bolcheviques.
Atrocidades foram cometidas de lado a lado, mas está incontrovertivelmente provado que quem as iniciou foi a Legião Tchecoslovaca, a ponta de lança do intervencionismo de Clemenceau e de Lloyd George, os dirigentes da França e Inglaterra.
Essa guerra civil, cujo cerne era a própria reação interna, custou a vida de 13 milhões de pessoas. Foi a guerra civil mais violenta da história e, no entanto, existe um mínimo de análise e de compreensão sobre o efeito que teve na psique dos bolcheviques.
Atrocidades foram cometidas de lado a lado, mas está incontrovertivelmente provado que quem as iniciou foi a Legião Tchecoslovaca, a ponta de lança do intervencionismo de Clemenceau e de Lloyd George, os dirigentes da França e Inglaterra.
Em julho de
1918, os bolcheviques dominavam o equivalente a 10% da URSS atual. Uma
social-revolucionária, Dora Kaplan, tentou matar Lênin. Antes, os
comunistas se haviam magnânimos. Soltavam generais tzaristas sob promessa
de que não pegariam armas contra a revolução (não faziam outra coisa).
Aboliram, para
escândalo de Lênin, cuja memória das gentilezas da Comuna de Paris era vívida, a pena de morte. Pensavam
conciliar com todos os partidos, desde que reconhecessem a
supremacia bolchevique.
| Stalin acumulava poder nos escalões burocráticos do partido |
Pós-Dora
Kaplan, Lênin chamou Félix Dzerzhinsky, revolucionário polonês, discípulo
de Rosa Luxemburgo, cuja ambição professa era dirigir um comissariado de
bem-estar da infância, e deu-lhe plenos poderes de combate à
contrarrevolução, via a famosa Cheka, a antecessora
da atual KGB. Numa noite, conta Victor Serge, a Cheka
matou 150 mil pessoas em Petrogrado, o sangue jorrava como água pelas ruas
em direção aos bueiros. Começara o terror vermelho.
Trotski erigiu do nada o Exército Vermelho e, revelando gênio militar que seus escritos sobre o tema já deixavam antever, derrotou a reação interna e os intervencionistas. A batalha decisiva foi em Leningrado, 1919, em que mulheres comunistas atacavam tanques usando facas de cozinha.
Trotski erigiu do nada o Exército Vermelho e, revelando gênio militar que seus escritos sobre o tema já deixavam antever, derrotou a reação interna e os intervencionistas. A batalha decisiva foi em Leningrado, 1919, em que mulheres comunistas atacavam tanques usando facas de cozinha.
A revolução
triunfara, embora a guerra civil só terminasse oficialmente em
1922. Triunfara, porém, sobre o quê? Em 1921, isolada do mundo, devastada
internamente, com fome e canibalismo em todos os cantos, à URSS restava o
partido único de Lênin, governando massas exaustas e hostis, que não
entendiam as sofisticadas esperanças de uma liderança que sonhava ainda
com a revolução mundial.
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| 1921: marinheiros do Kronstadt se revoltam contra o terror. |
O partido que
se permitia uma “espantosa liberdade de debate”, na frase do historiador
(hostil) Robert V. Daniels, se fracionara de tal forma que ameaçava o
próprio suicídio. Lênin sugeriu e todos aceitaram que fosse proibida a formação
de facções, de que se valeria Stálin mais tarde para esmagar todas as
oposições.
Em 1921, o
levante dos marinheiros da fortaleza Kronstadt foi impiedosamente esmagado
por Trotski, mas, no comentário de Lênin, iluminou dramaticamente a cena
de miséria e sofrimento do povo.
Lênin criou
a NEP, Nova Política Econômica, economia mista, em que as grandes (e
falidas) companhias do Estado permaneceriam sob controle estatal, mas aos
camponeses e donatários de indústrias médias se permitiria o capitalismo.
Foi um período de conciliação de classes que se estendeu até 1929, o
período mais pacífico da Revolução Soviética até a ascensão de
Kruschev, depois da morte de Stalin, em 1953.
Novamente,
Trotski se insurgiu, ainda que disciplinadamente, dentro das reuniões
do Partido. Trotski propunha a acelerada industrialização do país, a
militarização do trabalho, um regime draconiano de desenvolvimento da
indústria pesada (elaborado pelo economista Preobrazhensky), que seria
adotado ipsis
litteris por Stalin, pós-1929, sem reconhecer a
autoria, porque expulsara o autor do país nesse mesmo ano e o mandaria
assassinar no México, em 1940.
As explicações de trotskistas ilustres como Isaac Deutscher, de que o programa de Trotski era para ser adotado voluntariamente pelo povo, que excluiria a inacreditável brutalidade de Stalin ao coletivizar a agricultura, são especulações interessantes, impossíveis de provar ou desprovar.
As explicações de trotskistas ilustres como Isaac Deutscher, de que o programa de Trotski era para ser adotado voluntariamente pelo povo, que excluiria a inacreditável brutalidade de Stalin ao coletivizar a agricultura, são especulações interessantes, impossíveis de provar ou desprovar.
| Preobrazhensky: draconiano. |
Lênin não
aceitou a tese de Trotski. É uma questão aberta se ele considerava a NEP
um fenômeno transitório, o que é, claro, religiosamente afirmado pela
propaganda comunista, ou se voltara à concepção social-democrata,
menchevique, de que a URSS precisava de um período de desenvolvimento
capitalista antes de ingressar no socialismo.
O bolchevique favorito de Lênin, o benjamim do aartido, Nikolai Bukharin, acreditava na segunda hipótese, tanto assim que se aliou a Stalin para destruir a facção radical de Trotski (enriquecida depois de 1926 por Zinoviev e Kamenev) e caiu em 1929, defendendo os princípios da NEP. Nunca saberemos o que Lênin pensava realmente, pois morreu em 1924, sem deixar explicação, ao menos que tenha vindo a público.
O bolchevique favorito de Lênin, o benjamim do aartido, Nikolai Bukharin, acreditava na segunda hipótese, tanto assim que se aliou a Stalin para destruir a facção radical de Trotski (enriquecida depois de 1926 por Zinoviev e Kamenev) e caiu em 1929, defendendo os princípios da NEP. Nunca saberemos o que Lênin pensava realmente, pois morreu em 1924, sem deixar explicação, ao menos que tenha vindo a público.
Deixou,
porém, o famoso testamento. Se, de um lado, propõe a retirada de Stalin do
todo-poderoso cargo de secretário-geral do Partido, prevendo o futuro
tirano por implicação, de outro, embora reconhecendo a superioridade de
Trotski sobre os demais, critica-o pela “excessiva atração” (sic) por
“métodos administrativos” (sic), essa última expressão um eufemismo
de imposições de programas ao povo a chicote, o que seria a especialidade
do stalinismo.
Fora da URSS, Trotski, sem nunca rejeitar a tese do partido único e exclusivista, tornou-se um apóstolo do comunismo libertário, mas não era obviamente essa a posição dele nos tempos de Lênin, o que o testamento do líder especifica.
Fora da URSS, Trotski, sem nunca rejeitar a tese do partido único e exclusivista, tornou-se um apóstolo do comunismo libertário, mas não era obviamente essa a posição dele nos tempos de Lênin, o que o testamento do líder especifica.
A violência
com que Stalin industrializou a URSS na década de 1930 é
provavelmente responsável pela vitória da URSS sobre a Alemanha nazista e
por sua conversão numa superpotência que só rivaliza com os EUA.
O custo humano dessas realizações, porém, faz estremecer a mente. Cinco ou dez milhões (os dez milhões são de Stalin, ditos a Churchill) de camponeses assassinados na coletivização entre 1929 e 1932, o assassinato de 1 milhão de comunistas nos expurgos de 1934-1939. sem falar de suas respectivas famílias e amigos, elevando o total a 20 milhões de vítimas.
O custo humano dessas realizações, porém, faz estremecer a mente. Cinco ou dez milhões (os dez milhões são de Stalin, ditos a Churchill) de camponeses assassinados na coletivização entre 1929 e 1932, o assassinato de 1 milhão de comunistas nos expurgos de 1934-1939. sem falar de suas respectivas famílias e amigos, elevando o total a 20 milhões de vítimas.
| Era para exterminar os kulaks como classe, mas... |
A destruição
da fina flor da cultura russa, de Mandelstam a Babel, e o estabelecimento
de uma aridez burocrática na vida cultural do país, que permanece até
hoje. Uma tirania policial que antes de sua morte, em 1953, superava a de
Adolf Hitler.
E, finalmente, para manter paridade em armas com os EUA, a submissão do povo a indizíveis sacrifícios em nível de vida que, hoje, 24 anos depois da morte do tirano, continua mais baixo do que o da Bélgica, que a URSS, militar, incineraria em meia hora.
E, finalmente, para manter paridade em armas com os EUA, a submissão do povo a indizíveis sacrifícios em nível de vida que, hoje, 24 anos depois da morte do tirano, continua mais baixo do que o da Bélgica, que a URSS, militar, incineraria em meia hora.
Muito se
discutiu na polêmica Stalin-Trotski sobre a posição do primeiro em favor
de socialismo
num só país e a visão internacionalista de Trotski. Há
exagero de parte a parte. Stalin nunca desistiu da revolução mundial, nem
Trotski rejeitou a possibilidade de desenvolvimento autônomo da URSS.
Trotski não pôde provar o que faria, porque derrubado e assassinado.
Stalin, porém, forçado a fixar-se na URSS graças ao renascimento
do capitalismo europeu reabastecido pelos EUA, transformou a política
externa soviética num modelo de cinismo e oportunismo que desmoralizou o
comunismo tanto quanto o corrupto papado na era de Lutero.
| Mao Tsé-tung cansou de ser traído por Stalin |
Em 1927, sob os protestos de Trotski, inaudíveis fora do país, Stalin forçou os comunistas chineses a se aliarem a Chiang Kai-shek, pois temia que uma revolução comunista na China atraísse o ódio capitalista contra a URSS. Chiang massacrou os comunistas. Daí nasceu a revolta de Mao Tsé-tung à tutela soviética. No fim da Guerra de 1945, para aplacar os EUA, Stálin continuou traindo Mao e apoiando Chiang.
Na Iugoslávia, pelos mesmos motivos, na 2ª Guerra, queria que Tito partilhasse o poder com a monarquia.
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| Pacto entre Hitler e Stalin: uma abominação! |
Em 1938, na
Guerra Civil Espanhola, à parte mandar assassinar implacavelmente todos os
grupos esquerdistas não comunistas que lutavam contra Franco, iniciou a
redução do auxílio ao governo republicano porque já planejava o Pacto de
Não Agressão, vis-à-vis Hitler, de agosto
de 1939.
Na Alemanha de 1933, insistiu em que o PC considerasse os sociais-democratas os “verdadeiros fascistas”, cindindo a classe operária, o que facilitou a ascensão de Hitler.
Também no fim da 2ª Guerra fez os comunistas franceses e italianos baixarem armas em face dos EUA, porque queria preservar a esfera de influência que reservara para a URSS no Leste Europeu (apesar disso, essa esfera lhe foi negada pelos EUA até que a URSS desenvolvesse armas nucleares).
É difícil imaginar política mais sórdida e estúpida. Sem a cisão da classe operária alemã, Hitler só chegaria ao poder mediante uma guerra civil e é quase certo que, em 1933, se o Exército derrotasse socialistas e comunistas, teria posto no poder uma alternativa menos perigosa e agressiva do que Hitler.
Da mesma forma, o Pacto de Não Agressão nazicomunista de 1939 é julgado obra de gênio de Stalin, pois desviou as fúrias de Hitler para o Ocidente europeu, o qual tentava persuadir direta e indiretamente ao Führer que a URSS seria o alvo ideal de conquista alemã.
Esse raciocínio tem algum mérito até a invasão da Polônia por Hitler. Nesse período, a Inglaterra já se comprometera a defender a Polônia.
Na Alemanha de 1933, insistiu em que o PC considerasse os sociais-democratas os “verdadeiros fascistas”, cindindo a classe operária, o que facilitou a ascensão de Hitler.
Também no fim da 2ª Guerra fez os comunistas franceses e italianos baixarem armas em face dos EUA, porque queria preservar a esfera de influência que reservara para a URSS no Leste Europeu (apesar disso, essa esfera lhe foi negada pelos EUA até que a URSS desenvolvesse armas nucleares).
É difícil imaginar política mais sórdida e estúpida. Sem a cisão da classe operária alemã, Hitler só chegaria ao poder mediante uma guerra civil e é quase certo que, em 1933, se o Exército derrotasse socialistas e comunistas, teria posto no poder uma alternativa menos perigosa e agressiva do que Hitler.
Da mesma forma, o Pacto de Não Agressão nazicomunista de 1939 é julgado obra de gênio de Stalin, pois desviou as fúrias de Hitler para o Ocidente europeu, o qual tentava persuadir direta e indiretamente ao Führer que a URSS seria o alvo ideal de conquista alemã.
Esse raciocínio tem algum mérito até a invasão da Polônia por Hitler. Nesse período, a Inglaterra já se comprometera a defender a Polônia.
Se Stalin,
em vez de acumpliciar-se com Hitler, abocanhando metade da Polônia, lhe tivesse
dado combate, haveria sido mais fácil derrotar Hitler então, pois, sabemos
hoje, a máquina de guerra alemã era mais mistificação tática do que
realidade.
Já em 1941, quando Hitler atacou a URSS, dominava completamente a Europa, seus recursos e tropas. Colocou 144 divisões de elite vis-à-vis Stalin e 3 milhões de homens.
Stalin obteve, apesar de tudo, a maior vitória militar do século, mas ao preço de 20 milhões de soviéticos e de devastações no país maiores que as da guerra civil de 1918-1922.
Milhões de pessoas, no entanto, se sacrificaram por Stalin, idealistas, muitas das quais morreram fuziladas nos campos de extermínio da URSS, bradando triunfalmente o nome do carrasco, no momento em que este as executava, o que prova que o comunismo é a religião secular do nosso tempo.
Já em 1941, quando Hitler atacou a URSS, dominava completamente a Europa, seus recursos e tropas. Colocou 144 divisões de elite vis-à-vis Stalin e 3 milhões de homens.
Stalin obteve, apesar de tudo, a maior vitória militar do século, mas ao preço de 20 milhões de soviéticos e de devastações no país maiores que as da guerra civil de 1918-1922.
Milhões de pessoas, no entanto, se sacrificaram por Stalin, idealistas, muitas das quais morreram fuziladas nos campos de extermínio da URSS, bradando triunfalmente o nome do carrasco, no momento em que este as executava, o que prova que o comunismo é a religião secular do nosso tempo.
Resta da
URSS de Stalin a superpotência. Seus efeitos benéficos são indiretos.
Inexistisse a URSS, os EUA, no seu período de expansão imperialista, que
terminou com a Guerra do Vietnã, teria transformado o resto do mundo numa
coleção de Cingapuras. Todo movimento insurrecto, ou meramente
nacionalista, lançou olhos esperançosos na direção de Moscou, talvez porque
o único breque à superpotência americana, e não, certamente, porque Moscou
fosse a meca do internacionalismo revolucionário.
É difícil
imaginar um único movimento comunista fora da esfera de influência soviética
no Leste Europeu que aceite e admire o modelo soviético. E mesmo nessa
esfera a indocilidade e ânsias de libertação são sensíveis, não em
loucos santos do tipo Soljenítsin, mas em novas gerações de reformistas
comunistas, que anseiam por apagar a onerosa herança do stalinismo
que lhes foi imposta.
| Múmia do Lênin: "ruborizado, com toda a razão" |
E dentro da
própria URSS, tensões nacionalistas, a inexistência de um padrão de vida
civilizado, das mínimas liberdades individuais, provocam agonias de que temos
meros relances.
O stalinismo é um monumental leviatã militar e policial. Espiritualmente, é um cadáver. Seus decrépitos líderes não sabem sequer o que fazer. É uma ditadura caduca que se sustenta pela força da inércia e na ponta de mísseis nucleares e nos tentáculos da KGB.
Não era esse o sonho de Lênin e Trotski e, talvez, nem do próprio Stalin, no início de sua carreira. Mas foi a nação e o movimento que os três construíram e que cabe a gerações futuras reformular, eliminando deformidades e, principalmente, para purgar a alma de um grande povo, contar-lhe a verdade sobre sua história nesses tumultuosos sessenta anos.
Diversas circunstâncias históricas, principalmente a destruição do mundo burguês capitalista em 1914, deram margem à Revolução Soviética. Disso não resta dúvida. A mim, porém, me parece igualmente certo que, se não fosse o gênio de Lênin, Trotski e Stalin, essa revolução teria seguido um rumo muito diferente. A paternidade da URSS moderna é inequivocamente deles. E o que restou, no país que erigiram do feudalismo de 85% de camponeses, o que restou de cada um?
Lênin, homem simples, materialista convicto, está hoje transformado em ícone, ridiculamente mumificado na praça Vermelha, onde me pareceu ruborizado. Tem toda a razão. Deve estar em rotação permanente na cova.
O stalinismo é um monumental leviatã militar e policial. Espiritualmente, é um cadáver. Seus decrépitos líderes não sabem sequer o que fazer. É uma ditadura caduca que se sustenta pela força da inércia e na ponta de mísseis nucleares e nos tentáculos da KGB.
Não era esse o sonho de Lênin e Trotski e, talvez, nem do próprio Stalin, no início de sua carreira. Mas foi a nação e o movimento que os três construíram e que cabe a gerações futuras reformular, eliminando deformidades e, principalmente, para purgar a alma de um grande povo, contar-lhe a verdade sobre sua história nesses tumultuosos sessenta anos.
Diversas circunstâncias históricas, principalmente a destruição do mundo burguês capitalista em 1914, deram margem à Revolução Soviética. Disso não resta dúvida. A mim, porém, me parece igualmente certo que, se não fosse o gênio de Lênin, Trotski e Stalin, essa revolução teria seguido um rumo muito diferente. A paternidade da URSS moderna é inequivocamente deles. E o que restou, no país que erigiram do feudalismo de 85% de camponeses, o que restou de cada um?
Lênin, homem simples, materialista convicto, está hoje transformado em ícone, ridiculamente mumificado na praça Vermelha, onde me pareceu ruborizado. Tem toda a razão. Deve estar em rotação permanente na cova.
Trotski não existe na URSS ou é rotineiramente atacado pelos escribas dos burocratas gagás que administram o patrimônio de Stalin. Um crime histórico que dispensa comentários.
E o próprio Stalin virou assunto que não se
discute em casa de família. Depois
da superficial revisão do período Kruschev, colocaram de novo a mortalha sobre
o governo desse novo misto de Genghis Khan e Pedro, o Grande, que
reformulou completamente a história do nosso tempo.
Dizia-se que a revolução devora seus filhos. A soviética repete a máxima em farsa: fez deles objeto de ridículo para os desinformados, que permanecem 99% da humanidade.
Dizia-se que a revolução devora seus filhos. A soviética repete a máxima em farsa: fez deles objeto de ridículo para os desinformados, que permanecem 99% da humanidade.
| Por Paulo Francis |
Profundo, brilhante e até profético, este texto de
novembro de 1977 do Paulo Francis não poderia ficar ausente das discussões que
o centenário da Revolução Soviética suscitará até meados de novembro, daí a
minha decisão de resgatá-lo do injusto esquecimento.
E são muitas e muitas as lições que podemos extrair, a partir de tal pano de fundo. Destacarei duas:
E são muitas e muitas as lições que podemos extrair, a partir de tal pano de fundo. Destacarei duas:
E o próprio
Stalin virou assunto que não se discute em casa de família. Depois da superficial revisão do período Kruschev, colocaram de
novo a mortalha sobre o governo desse novo misto de Genghis Khan e Pedro,
o Grande, que reformulou completamente a história do nosso tempo.
Dizia-se que a revolução devora seus filhos. A soviética repete a máxima em farsa: fez deles objeto de ridículo para os desinformados, que permanecem 99% da humanidade.
Dizia-se que a revolução devora seus filhos. A soviética repete a máxima em farsa: fez deles objeto de ridículo para os desinformados, que permanecem 99% da humanidade.
·
a cisão do Partido Operário Social Democrata Russo,
em 1903, se deu porque os fantasmas da destruição da frouxa Comuna de Paris tiravam o sono
de Lênin, daí ele considerar imperativa a construção de um partido duro, de revolucionários profissionais
submetidos a direção e disciplina rígidas, enquanto Trotski via nisto um ovo da
serpente (primeiramente, o partido substituirá a classe operária, depois o Comitê
Central substituirá o partido e, afinal, um tirano substituirá o Comitê Central). De certa forma,
ambos estavam certos. Só um partido tipo jacobino, como o Bolchevique, conseguiria ter
tomado o poder em 1917 e o sustentado nos anos seguintes contra a formidável
coalizão de inimigos interno e externos. Mas, seu centralismo quase militar era
mesmo terreno fértil para a tirania, como Stalin provaria.
·
Na inflamada discussão interna sobre se os
bolcheviques deveriam ou não tomar o poder num país que nem de longe estava
pronto para o socialismo, prevaleceu a tese de que a revolução soviética seria
o estopim de uma sucessão de outras, começando pela alemã, cujo apoio
permitiria construir o novo regime na Rússia em condições menos draconianas.
Mas, abortada a sonhada sequência, a URSS contou apenas consigo mesma para superar
seu acentuado atraso econômico, acabando por fazê-lo a ferro e fogo. Com isto,
o chamado socialismo real soviético se
tornou tão odioso e execrável que serviu como exemplo negativo para a máquina
de propaganda burguesa dele afastar o proletariado das nações mais avançadas.
E, embora a construção do socialismo em nações isoladas esteja completando um
século de fracassos, até hoje a esquerda a continua tentando, em vão. Não seria
o caso de voltar a apostar suas principais fichas na revolução mundial? Não é
paradoxal a economia estar globalizada e os movimentos revolucionários terem
praticamente abandonado o internacionalismo de outrora?
Por último, é
impressionante como, com mais de uma década de antecedência, Paulo Francis já
previa (e ousava colocá-lo no papel!) o colapso do regime soviético. Quase
ninguém o fazia na esquerda brasileira, que, depois da primavera de 1968, regredira ao mais tacanho maniqueísmo, com
o consequente embotamento do espírito crítico.
Seria pedir demais que Paulo Francis, além disto, antecipasse que o leviatã sucumbiria principalmente por não conseguir
incorporar os avanços tecnológicos da 3ª revolução industrial e começar a
perder de goleada no front econômico, o que o forçou a optar entre a decadência
irreversível ou a volta ao capitalismo.

(por Celso Lungaretti)
Fonte: https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/




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