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Querida Marielle,
tenho, pessoalmente, identificação com você em alguns aspectos. E, como
um irmão jovem há mais tempo, acho que posso tecer comentários no sentido de
uma correção de rumos da nossa ação prática embasada na teoria, que considero
fundamental para nossos acertos na condução da nossa luta pela emancipação
humana, que não tenho dúvidas é nosso propósito comum (uso os verbos no
presente porque você está presente).
Temos três similaridades bem definidas:
a) somos conterrâneos, nascidos no Rio de Janeiro, embora com condições
sociais diferenciadas, mais difíceis para a criança que você foi, o que só
enaltece a grandeza e sentido de sua existência que permanece entre nós;
b) somos ligados à luta pelos direitos humanos. Como advogado, fui um
dos fundadores do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da
Arquidiocese de Fortaleza, sob os auspícios de D. Aloísio Cardeal Lorscheider,
ainda no início de 1980, enquanto você não apenas é uma militante nessa área
como parte integrante da luta contra a discriminação contra a mulher,
principalmente quando negra e vivendo numa área de segregação social
capitalista (a favela);
c) eu fui um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores nos idos de
1981 em Fortaleza, tendo sido expulso do Partido quando uma corrente me indicou
como possível candidato a prefeito na sucessão da Maria Luíza Fontenele em
1988. Era o secretário de Finanças da Administração Popular e, como eu e ela
não conciliamos com os donos do PIB e nem aceitamos a corrupção como forma de financiamento de campanhas
eleitorais (e outros objetivos inconfessáveis), fomos honrosamente
expulsos.
Com a experiência e exemplos históricos deixei de acreditar nos partidos
políticos, institucionais ou não, como instrumento de emancipação popular. Você
está há algum tempo tentando viabilizar eleitoralmente o Psol e ainda não teve
oportunidade de aprender o que é, na prática e sem interesse de enriquecimento
ilícito, o quão equivocada é a postura de administrarmos o aparelho de Estado
capitalista ou participarmos de sua institucionalidade parlamentar.
Essa nossa última identificação deixou de existir quando compreendi que
os partidos políticos fazem parte do sistema, principalmente os
institucionais.
Mesmo sem conhecer os detalhes sórdidos do atentado do qual você foi
vítima, não tenho dúvidas de que se deveu à sua atuação em defesa dos direitos
humanos numa cidade assolada pela corrupção (do colarinho branco ao colarinho sujo) que inflige tormentos terríveis ao
alegre, cordato e honesto povo carioca.
Sua execução não se deve, principalmente, à sua atuação parlamentar, mas
sim à supra-parlamentar. É que a defesa dos direitos fundamentais da pessoas
humana incomoda tanto o crime socialmente descriminalizado do capital (o roubo
do tempo de trabalho do trabalhador, fonte de toda a sua abjeta acumulação)
quanto o crime oficialmente criminalizado (a corrupção com o dinheiro público e
muitas outras formas criminosas tipificadas no Código Penal).
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Você é como tantas outras pessoas que ainda acreditam na importância da atividade parlamentar, daí ocupar uma cadeira na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
E, certamente, você acredita no seu partido político, o Psol, que aspira
conquistar o poder do aparelho de Estado burguês, como aconteceu nas últimas
eleições presidenciais na qual lançou o correto e bem intencionado Plínio de
Arruda Sampaio (de quem guardo gratas lembranças desde o tempo do PT, quando
foi um deputado federal que apoiou minha candidatura a prefeito de Fortaleza,
promovendo um almoço para este fim na sua residência de Brasília, com a
presença do Lula – que a rejeitou – e na qual me deliciei com um
delicioso peixe à moda ceviche preparado por sua esposa peruana).
Deixei de acreditar nos partidos e nas suas estruturas verticalizadas de
poder por ter sentido na carne o que isto significa; e deixei de acreditar na
falácia do centralismo democrático porque os partidos, ávidos de poder, apenas
reproduzem o que dizem combater.
Hoje eu sou, visceralmente e racionalmente anti-poder; não acredito em
poder popular, mas em exercício horizontalizado e distribuído de tarefas
sociais sob um modo de produção que elimine a acumulação da riqueza.
Mas é justamente aí, sobre a sua atividade política parlamentar e do seu
partido que aspira a ter assento na administração do aparelho de estado
burguês, que desejo me debruçar, tecendo algumas considerações a respeito
do significativo sentido de sua vida, que tomou uma expressão nacional e, por
isto mesmo, não deve servir de plataforma eleitoral oportunista.
Querida Marielle,
são muitos os que aproveitam a indignação popular contra o seu atentado
para afirmar (até de modo bem intencionado, inconsciente, ingênuo ou, o que é
pior, de forma oportunista e mal intencionada) a importância de mantermos
nossas lutas políticas dentro dos limites dos valores republicanos, na presunção de que se possa assim
humanizar o sistema capitalista e toda a suaentourage institucional.
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Tenho, pessoalmente, uma visão muito crítica de tal postura. Ainda
que reconheça a importância dos recursos da verba parlamentar como
financiamento de muitas lutas paralelas (como a defesa da mulher negra, que
você leva a cabo), bem como a importância da caixa de ressonância dos discursos
parlamentares, insisto em afirmar há um malefício aí embutido muito maior do
que os possíveis benefícios, daí a tal da democracia burguesa e o seu
famigerado estado democrático de direito tolerarem e até desejarem a presença
de gente combativa como você no parlamento.
É que, com a presença de dignos representantes do povo como você, a
farsa da democracia burguesa legitima os parlamentares eleitos tanto com os
mais variados incentivos do poder econômico quanto com recursos de origem
criminosa, afora a manipulação das consciências populares. Alega-se
cinicamente que foi o povo quem escolheu a uns e outros; e que tal forma de
escolha seria legítima e a melhor possível. Não é.
O parlamento burguês municipal do qual você faz parte não passa da
primeira instância da esfera do Poder Legislativo da sociedade do capital. É
onde se legitimam as leis municipais de opressão sistêmica, sempre patrocinadas
pela maioria parlamentar dos inimigos do povo.
Tais práticas estendem-se com maior grau de potencialidade opressora
para os parlamentos estaduais (caso do Rio de Janeiro, onde o seu presidente
Jorge Picciani está preso por corrupção) e os presidentes da Câmara Federal
(igualmente presos por corrupção estão Eduardo Cunha e Henrique Eduardo
Alves).
Mais nociva ainda nosso povo tão necessitado da verdadeira emancipação é
a briga de foice no escuro para assunção ao poder executivo dos aparelhos
estatais estaduais e federal.
A disposição de bem administrar o aparelho de estado burguês, atuando de
forma pró-povo, não passa de um equívoco colossal. Sou obrigado a lhe dizer, em
nome da teoria revolucionária e da experiência pessoal adquirida na
administração pública, que essa é uma quimera que nos tem colocado no eterno
dilema do mito de Sísifo (personagem da mitologia grega que
estava condenado a repetir eternamente o mesmo esforço sem nunca alcançar o
objetivo).
Uma vez investidos no poder burguês (parlamentar ou executivo), a
primeira coisa que fazemos é jurar obediência à Constituição burguesa na qual
estão insculpidos todos os artefatos da dominação de classe. Não é por menos
que o presidente Temerário, a imprensa burguesa e todos os áulicos
do sistema capitalista afirmaram que o atentado à sua pessoa foi também um
atentado à democracia e ao estado de direito.
Devemos ter muito cuidado com essas carpideiras de última hora, pois a
democracia burguesa e o estado de direito burguês são antagônicos ao povo
oprimido, justamente por tais instituições cumprirem o papel de coadjuvantes
políticas da opressão.
O capital em fase de decomposição, base das mazelas sociais contra as
quais você tanto se rebela, é que deve ser o foco do nosso ataque, diretamente,
sem comprometimentos; aspirando à assunção aos postos burgueses do aparelho de
estado que existem para lhe dar sustentação estamos apenas fazendo o jogo do
inimigo.
A participação nesses aparelhos políticos jurídico-institucionais nada
mais é do que uma contradição entre o nosso objetivo teleológico e a nossa
prática concreta, embora muitas vezes não nos apercebamos disto.
Uma vez assentados na gerência política estatal somos obrigados a tomar
medidas anti-povo por obediência à ditatorial lógica da boa administração econômica
ou, ainda, às leis de responsabilidade fiscal que determinam onde e sob quais
critérios quantitativos se pode gastar as verbas públicas advindas dos
escorchantes impostos pagos pelo povo. Tornamo-nos, ainda que não o queiramos,
odiosos coletores de tributos, incapazes do provimentos das demandas sociais.
Não basta uma revolução política. Faz-se necessária uma revolução no
conteúdo da forma de mediação social, ou seja, uma superação do modo de
produção social e suas categorias capitalistas (valor, trabalho abstrato,
dinheiro, mercadoria, mercado, etc.).
Marielle,
você é realmente gigante e é imortal na sua digna luta contra o racismo,
a misoginia, a homofobia e outras mazelas.
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Temos, contudo, de evitar que o seu exemplo seja utilizado para
viabilizar mudanças cosméticas que não alterem a essência da opressão.
Aqui se torna necessária uma observação histórica: os países que fizeram uma revolução política dita anticapitalista, sem, contudo, superarem as categorias capitalistas no interior de suas sociedades, permaneceram capitalistas na sua essência, ainda que tenham havido modificações na superestrutura política do poder.
Aqui se torna necessária uma observação histórica: os países que fizeram uma revolução política dita anticapitalista, sem, contudo, superarem as categorias capitalistas no interior de suas sociedades, permaneceram capitalistas na sua essência, ainda que tenham havido modificações na superestrutura política do poder.
Terminaram aderindo, por imposição fetichista, àquilo que não superaram:
as mesmas categorias capitalistas de outrora, que continuaram a lhes servir
como modo de mediação social.
Sob pena de continuarmos patinando na mesmice, temos de levar em conta
exemplos históricos como a da abolição da escravidão direta dos negros no
Brasil, que só serviu para entronizar outra forma de dominação.
Ela se deveu ao imperativo da necessidade de trabalho abstrato por parte
do capital emergente, daí ter dado lugar à escravidão indireta do trabalho
abstrato, que segregou as populações negras nos morros cariocas (lugares de
mais difícil acessibilidade de então), obrigando-as, sob tacão policial, ao
trabalho assalariado, sob pena de cometimento do crime de vadiagem, com negros
sendo presos e taxados como capadócios.
Após a dita abolição da escravatura, quem fosse pego com calo nos dedos era tido como sambista vagabundo, considerado criminoso e preso.
Assim, faz-se necessário abolir o trabalho abstrato como forma de se pôr
fim à segregação social do capital que deu azo à exclusão racista, pois não há
como se humanizar o capital e a sanha segregacionista da sua lógica
funcional.
Perdoe-me se também aproveito o atentado contra você para escrever esse
texto que deve servir de contraponto ao oportunismo vulgar de uns, e que não
reflete, obviamente, o vulto da honesta indignação popular diante do acontecido
e do que você representa.
Pelo que fizeram com você lacrimejo de modo doído, mas me esforço para
que o seu exemplo seja libertador, emancipacionista.
É com tal intento que me coloco
dialeticamente na avaliação de conteúdo do antes, do durante e do depois da
tragédia social de que somos todos vítimas, com alguma discórdia específica
diante do seu digno exemplo que é abrangente como o sol que a todos ilumina.
Não sinto saudade de quem está
presente pelo conteúdo do seu significado, mas sinto a falta da presença física
nas lutas de quem sequer cheguei a conhecer.
Receba o abraço fraterno de quem se
sente igualmente atingido pelas balas assassinas que covardemente lhe foram
desferidas.

Dalton Rosado




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