
Primeira parte da entrevista para a revista Princípios em que analisei a estratégia política em cenário de golpe e crise, a necessidade da unidade das esquerdas e o grito por Lula Livre.
Como pensar a estratégia e a tática política e eleitoral em meio ao cenário da crise institucional brasileira?
O vice-presidente do PCdoB, Walter Sorrentino, analisa como se comportou e aonde chegou o Partido diante do imprevisível quadro imposto à esquerda – e particularmente ao PT de Lula – pelo golpe. Para ele, está criado o cenário para uma desejável quinta vitória consecutiva das forças progressistas, objetivo que norteia a estratégia comunista desde que a esquerda foi expulsa do governo sob condições “excepcionais”
O vice-presidente do PCdoB, Walter Sorrentino, analisa como se comportou e aonde chegou o Partido diante do imprevisível quadro imposto à esquerda – e particularmente ao PT de Lula – pelo golpe. Para ele, está criado o cenário para uma desejável quinta vitória consecutiva das forças progressistas, objetivo que norteia a estratégia comunista desde que a esquerda foi expulsa do governo sob condições “excepcionais”
Dias antes da definição de Manuela D’Ávila como candidata a vice-presidente na chapa PT-PROS-PCdoB, os confrontos regionais pelas candidaturas começavam a baixar poeira, com a definição do apoio à reeleição de Flávio Dino ao governo do Maranhão e à reeleição de Vanessa Grazziotin na disputa ao Senado pelo Amazonas – ambas com peculiar valor, tanto para o PCdoB como para o próprio PT nacional, diante do papel que cumpriram na resistência contra o golpe do impeachment. Em outros nove estados, já haviam sido compostas coligações PT-PCdoB.
Após a definição da aliança nacional, Sorrentino, também secretário de Relações Internacionais do PCdoB, recebeu a redação de Princípios para um balanço dos últimos ajustes táticos. As excepcionalidades do cenário analisado foram frequentemente mencionadas pelo dirigente partidário, não apenas para demonstrar a dificuldade da definição da atitude de cada partido do campo progressista frente aos desafios que o consórcio golpista impunha, como para revelar a firmeza e o caráter vertebral da proposta do PCdoB, de unidade das forças progressistas, lastreada até o último instante em uma convergência programática em torno de um novo projeto nacional de desenvolvimento para o país.
Fim de ciclo
Para Sorrentino, o ciclo da Nova República chega a uma situação de enormes tensões agravadas com o golpe do impeachment, o que acirrou uma crise política e institucional no Brasil com algumas marcas muito características. “Talvez, a mais notória seja o papel do Judiciário brasileiro se arvorando como tutela da Nação. Uma crise política institucional, com essa intervenção política do Judiciário, levou o país a uma situação de certa anomia social, uma crise de referências e representação política numa sociedade fragmentada, ela própria, e que parece indicar o fim do ciclo da Nova República, em direção a um novo caráter republicano”, observa ele.
Uma tal viragem histórica não tem tempo determinado para se definir, pode ocupar um tempo político intermediário, a depender, no caso, do caráter e resultado das eleições em curso. Sorrentino pondera que os ciclos são construídos nos marcos institucionais de um dado período da vida nacional, mas também por meio de uma base social, política e eleitoral dos campos em confronto. “Nos últimos 30 anos, desde que adquirimos a legalidade em 1985, participamos de todas as lutas presidenciais e eleitorais ao lado do PT”, recorda ele, afirmando, portanto, que o PCdoB foi um dos construtores de uma base social eleitoral muito ampla e popular, identificada com um conjunto de ideias expressas nos movimentos sociais dos mais variados tipos e em numerosos segmentos médios progressistas e democráticos.
Preocupado com os movimentos dialéticos da realidade, Sorrentino considera temerário apontar fim e início de um processo histórico, quando os elementos de análise são complexos e lentos. Há casos em que o novo ciclo abre caminho para acontecer mediante uma crise nacional, uma crise de Estado que leve à convocação de um novo processo constituinte; em certas circunstâncias, com situações revolucionárias, em outras não.
“Ou isso pode se processar de maneira a ocupar um determinado período político, no qual se deslindam e se realinham os elementos dessa base social e instituições”. Ele exemplifica com o caso da Argentina, que teve diversos governos em poucos meses, no início dos anos 2000. “Para que a gente não fique com uma visão mecânica e ideal de que um ciclo se encerra e outro nasce, porque isso nos levaria a abstrair a análise concreta da realidade, das correlações de forças em confronto, da resultante das contradições em presença. Agindo assim nós passaríamos a pregar em nome de um futuro, abstraindo o presente, algo que nos induziria a erros muito clássicos na tática política”, explicou.
Regime de exceções
Desta forma, Sorrentino alerta para a necessidade de observar o processo real em curso, que lembra outros períodos históricos e outros golpes contra governos populares, mas que guarda “excepcionalidades” muito peculiares. Ele, inclusive, admite a condicionante de nem mesmo as eleições serem capazes de fazerem essa viragem de ciclo. “Se, para o caso de essas eleições de outubro não conferirem legitimidade a um novo ciclo político, nós podemos ainda permanecer numa crise política institucional latente, que nem assim se resolva.”
Um ciclo está acabando, outro precisa abrir caminho, mas não tem ainda assegurados os meios. Para Sorrentino, este período de transição e imprevisibilidade em que as regras do jogo estão sendo quebradas uma após outra, sem indicativos de que vão se consolidar novamente, é um dado importante dessa realidade que o Brasil atravessa, pleno de excepcionalidades. Ele considera uma excepcionalidade um golpe de Estado de modalidade parlamentar com apoio do Judiciário que levou à ruptura do pacto democrático no país, assim como é uma excepcionalidade a Justiça – que deveria proteger a Constituição – interpretá-la cotidianamente ao sabor de interesses políticos. Onde juízes de primeira e segunda instâncias se arvoram em chefes morais da nação, chamando para si um pretenso poder de tutela. Ele continua alinhando a série de imprevistos, como o impeachment sobre uma presidenta com 54 milhões de votos, com a consequente implantação de um programa de governo que ela derrotara dois anos antes. Mas isso são águas passadas e devidamente digeridas, já que esta narrativa foi amplamente cristalizada entre os setores democráticos e progressistas mais amplos da nação e mesmo do mundo.
O que não se esperava, conforme opina Sorrentino, são as demais excepcionalidades. “A ‘Ponte para o Futuro’ continha uma estratégia política com alguma consistência”, admite. O dirigente comunista refere-se ao programa imposto pelo novo governo de Michel Temer, basicamente o programa tucano derrotado pela esquerda progressista. Programa que previa um brutal ajuste fiscal capaz de colocar as contas do país nos trilhos, mas prometendo superar a vigorosa recessão da economia – a mais prolongada da história do país. O que se viu foi uma radicalização do programa tucano, assumindo um caráter ultraliberal, neocolonial e autoritário. As reformas são feitas em ritmo de blitzkrieg [a guerra-relâmpago dos nazistas], aproveitando-se da poderosa derrota da esquerda, não concedendo tempo para a recomposição da resistência visando a barrá-las.
Assim, a aposta do golpe era fazer essas reformas que jamais passariam pelo voto popular e, dado o ciclo econômico natural do capitalismo, até o fim de 2017 se retomaria certo crescimento da economia com tendência ao fim da recessão. Deste modo, a direita golpista poderia ir às urnas num ambiente econômico com uma promessa de futuro, travestindo o programa num suposto “reformismo liberal”.
A derrota parcial da estratégia econômica e política do golpismo
“As reformas foram aprovadas, exceto a da Previdência! O golpe não fracassou nesse sentido, ele fez e continua fazendo o seu papel, derruindo a nação brasileira, a democracia e os direitos do povo. Mas a estratégia política foi derrotada, porque eles chegaram, no último ano, a uma crise política institucional ainda maior, aprofundando o grande drama social, com o país mergulhado numa grave crise federativa e da segurança pública, o maior líder político popular preso à margem do Estado Democrático de Direito, sem provas. E, por cima disso tudo, Lula liderando com folga todas as pesquisas eleitorais.”
Esse quadro calamitoso levou à fragmentação do campo conservador. Quando se tentou incluir um candidato único dessas forças, que viria a ser um tucano, Geraldo Alckmin, como tradicionalmente é, os golpistas se viram em enormes dificuldades. Se o candidato de Temer, Henrique Meirelles (MDB), é uma piada pronta – na verdade linha auxiliar para o Planalto ajudar Alckmin, dispensando-o da defesa do governo Temer –, o tucano se arrasta nas pesquisas de opinião.
O Centrão, conjunto de partidos que atuam como correias de transmissão do poder, tinha adotado uma posição dividida. Parte preferia ir com Ciro Gomes, ou com outras alternativas, já que o nome do tucano não deslancha na intenção de voto. “Isso já era expressão do fracasso daquela estratégia política. Essa questão da dispersão foi resolvida pela tradição de força da plutocracia, interna e externa ao país, mediada pelo Palácio do Planalto, que tem a máquina federal de fazer voto, e impôs a ordem unida: o Centrão não pode ir com Ciro, tem que ir com Alckmin, ou estará fora da máquina de governo!” Mas não lograram êxito integral: restariam Bolsonaro, monstro que eles próprios criaram, além de Marina e Álvaro Dias a disputarem o mesmo campo de votos. Mais que isso, em quase todo o Nordeste, líderes do Centrão publicamente apoiam Lula.
Fragmentação ou unidade
Não obstante esse terreno movediço, Sorrentino indica que o PCdoB fixou o rumo de uma estratégia eleitoral visando a vencer as eleições, por meio da unidade das forças de esquerda, progressistas e democráticas. “Hoje, a gente lida com essa situação: tornou-se possível, mediante táticas acertadas, levar as nossas forças ao segundo turno e ousar vencer a quinta eleição presidencial consecutiva”, exclamou.
Aqui, o vice-presidente do PCdoB ressalta o papel da candidatura de Manuela D’Ávila, face à prisão de Lula e a estratégias particularistas dos demais partidos do campo progressista. Manuela cresceu ao ocupar o espaço político de pregar a convergência programática dessas forças e de unidade entre as principais candidaturas postas.
Manuela foi a única vocalização dessa tática para garantir uma vitória contra o golpe. Para o dirigente do PCdoB, o Partido se posicionou ocupando tal espaço amplo, mas vazio, ao dizer que, diante do que ocorria, tínhamos de ter uma estratégia política para vencer as eleições, e não apenas para concorrer ou salvaguardar interesses desta ou daquela força, por legítima que fosse. “A deputada e presidente do PCdoB, Luciana Santos, teve a dimensão exata do que estava em jogo”, diz Sorrentino.
O trunfo Manuela D’Ávila
O desempenho de Manuela candidata foi excepcional. “Ela interpretou com brilho essa tática, esse lugar político próprio que o PCdoB ocupou, essa avenida que se abria. Ela se afirmou com maestria e elevação política, grande sagacidade e impressionou por seu carisma extraordinário. Mais importante ainda foi a capacidade de conectar essa mensagem com os novos segmentos sociais e as novas características da sociedade, que estão muito modificadas, seja por anomia, seja por sentimento antipolítica, seja por crise de representação, seja por pobreza mesmo. Ambiente em que as pessoas simples nem conseguem se posicionar, em uma sociedade cansada da política, mas ainda mais cansada da confusão política em busca de estabilidade”, declarou Sorrentino.
Manuela se tornou a “campeã das redes”, alternando o título com Bolsonaro e Lula. Destacou-se junto à juventude pobre e escolarizada, entre as mulheres, principalmente por ser a única candidata progressista, já que Marina não se ocupava disso, foi destaque entre os movimentos sociais das mais variadas causas e índoles. Sorrentino destaca o fato de Manuela ter se mantido na tela do radar do jogo principal o tempo todo, mesmo sendo de um pequeno partido. “Ela esteve sempre acima da ‘linha d’água’ nesse período”, afirma ele, complementando: “foi uma tentativa de atender ao anseio de criar saídas renovadas e nomes de renovação política no campo progressista de esquerda”.
Reconhecimento e respeito
O crescimento do prestígio de Manuela revela o alcance da estratégia eleitoral do PCdoB. Sorrentino lembrou o esforço de iniciativa do PCdoB por uma convergência programática, que evoluiu para um documento único dos cinco partidos, incluídos PT, PSOL, PDT e PSB (com participação especial). Um programa básico centrado na proposta de novo projeto nacional de desenvolvimento, que vai ao encontro de extensos setores democráticos, progressistas e patrióticos, sobretudo populares.
Mas o PCdoB, nesse rumo, e propondo a unidade entre as candidaturas do campo progressista, situou-se em meio a diferentes estratégias políticas eleitorais, todas elas legítimas, embora reforçassem a fragmentação.
“Vimos que todos tinham suas razões e ninguém tinha razão, porque o que estava e está em jogo é o Brasil. É no curso de contemplar os interesses do Brasil, do povo e da democracia que você se afirma como força política. O PCdoB luta obviamente por seus interesses, mas o faz com vocação estratégica de governar o país, e de modo que na luta por seus interesses estes se façam os interesses da maioria da sociedade, se confundam com eles”, resumiu.
O grito que vem do cárcere
Para Sorrentino, ocorreu aí um último imprevisto: a enorme resiliência de Lula candidato. Lula preso continua com praticamente 40% de preferências eleitorais, lidera todas as pesquisas e ganha em todos os cenários de segundo turno. “Então, um grande trunfo político é, como se previa, a força de Lula. Força que aparece amparada num legado na memória popular e também como símbolo da injustiça, além de representar ele próprio um programa de nova esperança de futuro. Ele encarna esse papel naturalmente e ninguém poderia desconsiderar essa questão”, afirmou.
Uma coisa é certa, diz Sorrentino: “não se ganham eleições presidenciais apenas com o apoio do bloco político social popular; mas ninguém as vencerá sem esse apoio”. E essa opção referencial se impôs.
Cezar Xavier é jornalista e integra a equipe de redação da Revista Princípios e do Portal Grabois.
Osvaldo Bertolino é jornalista e escritor, editor do portal Grabois.org. É autor, entre outras publicações, das biografias de Pedro Pomar, Carlos Danielli, Vital Nolasco e Maurício Grabois.
**Para assinar a Revista Princípios, acesse: http://www.anitagaribaldi.com.br/produtos/765/revistas/socialismo-e-marxismo/assinatura-revista-principios-impressa-brinde-digital.html
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