sábado, 1 de agosto de 2015

CORREIO BRAZILIENSE: Tatuadora transforma em arte cicatrizes de mulheres vítimas de violência

Reprodução/Facebook

O projeto ajuda as mulheres a recuperar a autoestima por meio de imagens que cobrem as marcas de agressão


Dois golpes de faca rasgaram o peito próximo ao coração de Milena*. No caminho para o trabalho, ela foi agredida a facadas pelo ex-namorado inconformado com o término do relacionamento. Em seguida, ele se matou e Milena só sobreviveu depois de um longo período na UTI. As marcas no peito da jovem continuam lá, mas nesta sexta-feira (31/7), ela se reúne com a tatuadora curitibana Flavia Carvalho, idealizadora do projeto “A pele da flor”: juntas vão definir o desenho para cobrir a marca e ajudá-la enfim a superar a história, transformando o olhar sobre a cicatriz.


Essa é uma das dezenas de histórias que Flávia já ouviu. “A pele da Flor” foi criado para ajudar as mulheres vítimas de violência a recuperar a autoestima por meio de tatuagens. “São muitos os casos que eu escuto: professora esfaqueada por alunos, mulheres estupradas e agredidas. A minha satisfação é poder acolher essas mulheres e ajudá-las a resgatar a autoestima”, orgulha-se Flávia.

Reprodução/Facebook

A ideia do projeto nasceu durante uma sessão de tatuagem há aproximadamente dois anos. “Quando terminei de cobrir a cicatriz de uma mulher, que havia levado uma facada em uma balada ao se recusar a beijar um homem, e ela se olhou no espelho, eu pude ver no rosto dela como isso foi transformador: mudou a relação dela com o corpo”, diz Flavia. 

Desde então, a tatuadora iniciou uma jornada para a viabilização do projeto. Flávia procurou organizações e entidades de proteção a mulheres vítimas de violência, mas todas se recusaram a oferecer apoio, alegando que não haveria demanda. A reviravolta ocorreu quando a Secretaria da Mulher, da prefeitura de Curitiba, topou a parceria e anunciou o serviço em uma rede social na última terça-feira (28/7).

“Eu sempre pensei na quantidade de mulheres que passam diariamente por algum tipo de violência doméstica e que não têm condições financeiras de cobrir a cicatriz com plástica ou com tatuagem. Mas não imaginava que a procura seria tão grande. Superou todas as minhas expectativas”, comemora a tatuadora. 

O preço das tatuagens para cobrir cicatriz varia entre R$ 500 e R$ 800. Porém, os trabalhos realizados para o projeto são gratuitos. “O único custo que as participantes têm é o de vir até o estúdio” aponta a tatuadora, que inaugura o projeto disponibilizando um horário por semana para os atendimentos gratuitos: “A intenção é atender a todas que me procuram. Vou ajustando a minha agenda”.

As imagens são definidas após avaliação da parte do corpo que vai receber a arte de Flávia. “Eu analiso a cicatriz, o tamanho e o formato. Em seguida, escolhemos o desenho que terá um melhor resultado”, explica Flávia. Ela conta que os desenhos mais procurados para essa finalidade criam oposição estética definitva aos dramas e tragédias que os motivaram: são imagens delicadas, como de flores ou pássaros.
(*) Nome fictício
Fonte: Correiro Braziliense

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