quinta-feira, 17 de março de 2016

Rompendo com o roteiro da grande mídia e com o golpe

Toda narrativa política, antes de ser política, é simbólica. Lula mora em São Bernardo, lugar em que atuou como operário. É nele que a novela midiática personaliza a esquerda, o poder do operariado, a luta de classes, um amplo espectro de tensões que não pretende analisar, mas esticar até romper: é preciso para os roteiristas, que a corda rompa, e que a elite volte a ocupar o lugar de honra, de privilégio, de detentora de poder e de protagonismo na narrativa
É absolutamente inquestionável o papel da Internet em difundir informação. TODO TIPO de informação. Veraz e absolutamente sem nenhum fundamento. Se outrora apenas imensas corporações detinham o poder de difundir informação, fosse ou não verdadeira, hoje a economia da informação tem agentes de todos os tipos, tamanhos e forças, e a disputa diária pela difusão do dado, da notícia, da opinião, e muitas vezes, infelizmente, do mentira, virou uma imensa parafernália de links. Como aponta Castells, “a política da mídia não se aplica a todas as formas de fazer política, mas todas as formas de política têm necessariamente de passar pela mídia para influenciar o processo decisório. ” Com muita ênfase em todas as formas.
Nos últimos dias, a política brasileira passou a viver uma erupção de fatos, todos midiatizados instantaneamente, muitos produzidos por uma narrativa que revela muito mais um espetáculo midiático, que qualquer tentativa de fazer a população pensar, analisar, entender, parece impossível. Parece, isto sim, que fomos arrastados, de uma só vez, para uma narrativa ficcional, que nos exige amar e odiar conforme desejam os roteiristas da grande mídia, e pensar toda construção democrática como uma novela das nove, na qual, em dado momento, o desfecho poderá colocar em perigo toda estrutura democrática. É preciso entender: não é novela. É um país.
Embora os roteiristas tentem de tudo para fazer a população acreditar que o tubo é realidade e nós vivemos a ficção, o tubo não revela a realidade, nem de longe. Tudo, cada detalhe é pensado pelos roteiristas: para que cada um confunda, novamente, realidade e ficção. E a melhor forma que encontraram para isso, como sempre, foi se valer da narrativa. A narrativa sobre a casa do Guarujá do Lula existe há muito tempo. Contam isso desde que ele foi candidato a governador. Já fizeram com outro presidente deposto. Nunca provaram, de jeito nenhum que ele tinha casa na praia, (e se ele tivesse, meu Deus, qual seria o problema), mas você precisa acreditar nisso, de qualquer jeito. Eles precisam provar que a casa na praia é dele e foi comprada com dinheiro de empresas, para montar o personagem que eles desejam para a novela deles.  A cada fato novo, casa, sítio, grampo, japonês, juiz, a população reage como sempre reagiu a um último capítulo de novela, e é preciso entender, que para uma democracia forte, racionalidade precisa fazer parte do processo. Política construída apenas com mídia e emoção é fascismo, em seu estado de mais puro cio.
Por exemplo, a narrativa sobre a casa da praia traz dentro de si elementos que a direita persegue há anos. Há o que se pensar com esta obsessão a respeito de casa na praia? Está certo que a elite brasileira adora Caribe, Ibiza, Mônaco e Saint Tropez, basta ler a Vogue do mês que você vê uma das quatro citadas. Não teria nada demais se Lula, ou qualquer trabalhador brasileiro tivesse uma casa de praia, aliás.  Mas, a narrativa de novela perversa quer fazer acreditar que casa de praia deslocaria o líder operário para outro lugar. Não é só a questão da corrupção, tem que ter comprado casa na praia, porque aí deixa de ser líder operário, na cabeça pervertia destes roteiristas doentes da grande mídia.  Falar de sítio, de apartamento com vista para o mar, de corrupção, de suas viagens, é deslocar simbolicamente, para os roteiristas da novela, o Lula operário, para um Lula classe média alta, distante do povo que o elegeu. Como se tudo fosse simples assim. E não o é. Lula pode ter saído da fábrica, mas a fábrica nunca sairá da alma do Lula, na rua, na casa e na fazenda, ele sempre será operário, sempre será um trabalhador.
No Brasil, acompanho há cerca de uma década e meia, os discursos que a direita construiu em torno da pessoa de Luiz Inácio Lula da Silva sempre apontaram para três aspectos:
1) o de desenvolver uma narrativa midiática, e portanto, simbólico/política que associasse a figura do PT a algo a se temer, pelo vínculo com comunismo (uma vez num táxi, o motorista me garantiu que a maior prova de estarmos numa ditadura comunista era o imenso lucro dos bancos privados – eu juro que pensei ter entrado num universo paralelo), com o crime, com o desconhecido, e se possível, com tudo isso conectado. Por exemplo, na eleição de 1989, se por um lado o Jornal Nacional noticiava que era encontrado material do PT com sequestradores de Abílio Diniz, ainda que jamais fosse provado qualquer laço entre o partido e os criminosos, por outro lado, Ronaldo Caiado vinculava o assalto do banco do brasil na Bahia a também membros do partido.
2) associando o então candidato a uma imagem de despreparo, desvalorizando sua trajetória como líder operário. Nas comunidades contra Lula no Facebook e no antigo Orkut, que acompanhei por mais de dez anos, LULA é, em ordem de uso, “candidato de pobre, preto e nordestino”, “nordestino corrupto”, o “nordestino ladrão e analfabeto”, “o nordestino maldito”, entre outras expressões. O uso de “ladrão” e de “corrupto” surgem muito, muito antes da LAVA-JATO, na verdade (tenho dados desde 1989), aparecem sempre vinculados a nordestino e pobre. Essa questão narrativa, demonstra que no Brasil há, por décadas uma criminalização da pobreza, no discurso político, e se Lula veio da pobreza e do Nordeste, não pertenceria “às pessoas de bem” como descrevem as comunidades. Lula não é analfabeto, longe disto, e é talvez uma das pessoas do Brasil mais capacitadas a apresentar a Nação ao mundo, pelo seu imenso conhecimento sobre o país. Mas, se ele erra um dado demográfico de uma cidade, o que seria absolutamente aceitável, visto que há milhares de munícipios no Brasil, a notícia é de seu desconhecimento total de tudo. A perseguição à Lula no Brasil pela elite é claramente uma tentativa de fixar um lugar de classe.
3) A imensa personalização da esquerda em LULA, num contexto que engloba: “a) o declínio dos partidos políticos, bem como do papel por eles representado na escolha de candidatos; b) o surgimento de um complexo sistema de veículos de comunicação […]; c) o desenvolvimento do marketing político” (CASTELLS: 1996, 374 e 375). A direita não consegue produzir (no sentido de pensar e construir, embora use e disponha de todo aparato midiático, no Brasil), nada semelhante a um líder. Então, personificar todo ódio em LULA é uma tentativa desesperada de destituí-lo de seu status de líder operário.
Explico-me: toda narrativa política, antes de ser política, é simbólica. Lula mora em São Bernardo, lugar em que atuou como operário. É nele que a novela midiática personaliza a esquerda, o poder do operariado, a luta de classes, um amplo espectro de tensões que não pretende analisar, mas esticar até romper: é preciso para os roteiristas, que a corda rompa, e que a elite volte a ocupar o lugar de honra, de privilégio, de detentora de poder e de protagonismo na narrativa. Por isso é preciso, para eles, criar o Lula antagonista, o vilão, e tecer, até a exaustão narrativas monstruosas sobre ele. Mas, o verdadeiro povo brasileiro, o povo profundo, o operário, o trabalhador, o povo pensante, NUNCA o reconhecerá como o vilão da história. Porque desejamos um país democrático, sem oligarquias, com todas as vidas humanas respeitadas. E podemos, basta entender que o próximo capítulo quem escreve somos nós.
Adriana Dias é mestre e doutoranda em Antropologia Social – IFCH – Unicamp, coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia e membro da  American Anthropological Association, da Associação Brasileira de Cibercultura e da  Latin American Jewish Studies Association.
Fonte: Revista Fórum


Nenhum comentário:

Postar um comentário