Campanhas equivocadas visam dar um caráter biológico/patológico
ao que é um crime de ódio fomentado por setores da sociedade
Por
Marcelo Hailer
A data de 17 de maio é
quando, mundialmente, se protesta contra a homofobia (crimes de ódio cometido
contra as LGBT). Tal dia não foi escolhido à toa, trata-se de quando a
homossexualidade deixou de ser considerada uma doença na Classificação
Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID)
da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1990.
Desde que os crimes contra
LGBT ganharam visibilidade na imprensa (alternativa e tradicional) também
pipocaram campanhas contra a homofobia e, muitas delas, sempre a partir do
discurso patológico. Mais ou menos assim: boa parte das pessoas que cometem
atos de ódio contra LGBT são pessoas com a sua sexualidade não resolvida e,
para extravasar tal sentimento, espancam o outro que vivencia a sua sexualidade
livremente.
Este argumento
biológico/patológico é pra lá de problemático. Pois, se o sentimento de repulsa
por LGBT é algo da área de doenças, logo as pessoas com sentimentos odiosos por
sujeitos que vivenciam sexualidades não-normativas podem ser “curadas” de sua
“fobia” por vivências dissidentes. Além do caráter biológico/essencialista de
tal tese, ela retira os crimes de ódio da esfera social. A homofobia não é
passível de cura, pois ela é construída diariamente por setores conservadores
da sociedade brasileira e fora dela.
As campanhas que carregam o
mote “homofobia tem cura” cometem outro erro: se balizar a partir de um
conceito medicinal e psiquiátrico para localizar o crime de ódio. Ora, isto é
contraditório, visto que a primeira fase de lutas do movimento LGBT é
justamente contra os dispositivos medicinais que patologizavam (e ainda o
fazem) as experiências LGBT. Portanto, se utilizar da mesma ferramenta para
combater o inimigo é equivocado e extremamente conservador, no sentido de
manter o status quo do discurso medicinal e de controle
sobre os corpos.
Não custa lembrar que,
historicamente, isto é, desde o século XVIII, a narrativa das sexualidades
não-heteronormativas tem sido construída pelo discurso medicinal/ psiquiátrico
tendo como aliado setores religiosos, o Estado e os aparatos militares.
A homofobia não tem cura e
sua erradicação só será possível com a desconstrução das estruturas de nossa
sociedade que tem as suas bases na exploração de classe, no machismo, no
racismo e na xenofobia. Só a partir da construção de políticas públicas que
visem atacar o problema na raiz é que poderemos vislumbrar uma sociedade que
conviva com as diferenças.
Fonte: Revista Fórum

Nenhum comentário:
Postar um comentário