
MARCOS CORRÊA / PR / CP
Escrito por: Lu Sudré, do Brasil de Fato
Violações ocorreram em fazenda cafeeira
localizada em MG e abrangem, principalmente, segurança e saúde dos trabalhadores.
O atual ministro do Trabalho, Caio Luiz de Almeida
Vieira de Mello, desembargador aposentado do Tribunal Regional do
Trabalho da 3ª Região entre 2008 e 2009, foi autuado 24 vezes por infrações
trabalhistas. As irregularidades foram constatadas na fazenda do ministro, que
chegou a ocupar o cargo de vice-presidente do TRT-3ª Região.
As infrações foram registradas entre 2003 e 2009
durante fiscalizações dos auditores fiscais do Ministério do Trabalho na
Fazenda Campestre, localizada em Conceição do Rio Verde, no sul de Minas
Gerais, onde o atual titular da pasta mantinha uma plantação de café.
De acordo com informações obtidas pelo Brasil de Fato,
os 24 processos foram arquivados mediante pagamento de multa, que chegaram a R$
46 mil. As autuações abrangem, principalmente, violações relacionadas à
segurança e à saúde dos trabalhadores, normas previstas no artigo 13 da Lei
5889/73. Os critérios avaliados nas autuações constam na NR-31, norma
específica que regulamenta o trabalho rural desde 2005, considerada um marco na
fiscalização.
Infrações
Os trabalhadores da Fazenda Campestre exerciam a
jornada em péssimas condições de higiene e segurança, sem o devido
acompanhamento médico (exames admissionais, periódicos e toxicológicos). Duas
infrações relatam que trabalhadores rurais estavam sem registro em carteira de
trabalho, ou seja, não recebiam direitos trabalhistas, como INSS, férias
remuneradas e FGTS.
As autuações referem-se também à presença de
instalações elétricas desprotegidas, trabalhadores sem os Equipamentos de
Proteção Individual (EPI) previstos em lei e máquinas estacionárias localizadas
em zonas perigosas, com dispositivos de partida e acionamento frágeis,
acarretando riscos aos operadores.
Em resposta à reportagem, o Ministério do Trabalho
informou, por telefone, que não há o que comentar já que todos os processos
foram quitados e dizem respeito a um período anterior a Vieira de Mello ocupar
o ministério.
Desrespeito
Segundo Frei Jean Marie Xavier Plassat, coordenador
da Campanha contra o Trabalho Escravo na Comissão Pastoral da Terra (CPT), as
infrações trabalhistas podem levar a um cenário ainda pior de violação de
direitos humanos.
“Há um limite bem sutil entre uma situação que
configura trabalho precário, violações trabalhistas, e a intensificação dessas
violações que culminam no trabalho qualificado como trabalho análogo ao
escravo”, afirma Plassat.
O coordenador da CPT relata que, nos últimos quatro
anos e meio, foram resgatadas mais de 530 pessoas em situação de escravidão
moderna, em Minas Gerais, no Espírito Santo e na Bahia, sendo que o estado
mineiro concentrou cerca de 400 dos casos.
“Ninguém pode dizer: 'Eu não sabia que era ruim
alguém respirar veneno o dia todo sem proteção'. 'Eu não sabia que era ruim
beber a mesma água que tomam os animais'. 'Eu não sabia que era ruim uma
jornada exaustiva'. Ninguém pode dizer isso. É uma atitude criminosa”, ressalta
o religioso, questionando o modo como as violações dos direitos trabalhistas
são vistas pela sociedade. “Podemos nos perguntar se multas resolvem. Se trata
de uma prática de desprezo à legislação e a pessoa do trabalhador. Mereceria
uma reprovação social bem maior”, aponta.
Frei Xavier critica de forma contundente a escolha
de Vieira de Mello para o cargo de ministro do Trabalho e declara que o governo
deveria ter realizado o mínimo de investigação para não chamar pessoas de
conduta social duvidosa para compor os ministérios.
“Eles querem nos confirmar que, na verdade, o que
eles conseguiram nos impor goela à baixo por meio da reforma trabalhista que
nos faz voltar 50 anos ou mais. Esse era, desde sempre, o ‘normal’ do trabalho
e esse ministro antecipou o que era a reforma trabalhista de hoje”, lamenta.
Encurralados por veneno
Os trabalhadores da Fazenda Campestre também
estavam expostos a sérios riscos de intoxicação por agrotóxicos. Três autos de
infrações referiam-se a itens da NR-31 que correlacionam as áreas de vivência
dos trabalhadores com a presença dos agroquímicos em uma distância próxima.
Vieira de Mello foi autuado por infringir normas
que definem que as moradias familiares dos trabalhadores rurais devem ser
construídas em local arejado e afastadas, no mínimo, 50 metros de construções
destinadas a outros fins.
O armazenamento de agrotóxicos devem estar situados
a mais de 30 metros das habitações e os produtos tóxicos também devem ter
acesso restrito apenas aos trabalhadores que sejam capacitados ao manuseio,
duas orientações que não eram cumpridas em Conceição de Rio Verde.
Frei Xavier Plassat relembra que o contato direto
com os agrotóxicos causam graves problemas à saúde: “o pior é que se impõe ao
trabalhador, não somente trabalhar o dia todo com o veneno, sem proteção, mas,
à noite, deitar-se em uma rede que está em um armazém de produtos tóxicos ou em
cima das fezes dos animais ou na fumaça da carvoaria. Há uma forma de se
comportar da parte de certos empregadores que está realmente além do limite
tolerado. Passam de um limite de tolerância que ninguém devia ultrapassar,
muito menos o ministro do Trabalho.”
Café certificado, trabalho precarizado
O Brasil é responsável por plantar aproximadamente
um terço de todo o café consumido no mundo. Apesar de ter produções
certificadas, um estudo feito pela ONG Repórter Brasil em 2016, mostrou que
fazendas de café brasileiras violam direitos dos trabalhadores, submetidos a
trabalhos informais e irregularidades no uso de agrotóxicos.
O relatório Monitor: Café certificado, trabalhador
sem direitos analisou os bastidores da produção dos grãos em Carmo de
Minas (MG) e Jesuânia (MG). Ambos cafezais são consideráveis “sustentáveis” e já
detiveram os principais selos de boas práticas em operação no país: UTZ,
Rainforest Alliance e Certifica Minas.
Além do emprego de mão de obra informal, a Repórter
Brasil identificou diversos tipos de infrações trabalhistas, entre elas o
pagamento inferior à metade do salário mínimo, o não pagamento de benefícios
previstos por lei, descontos indevidos nos salários e o desrespeito às normas
para uso de agrotóxicos.
A ONG dinamarquesa Danwatch também apontou em 2016
que na cafeicultura brasileira há problemas trabalhistas, incluindo condições
análogas à escravidão. A organização afirmou ter acompanhado fiscalizações em
lavouras brasileiras e reforçou a prática do uso de pesticidas sem proteção
pelos trabalhadores. As informações estão centralizadas no documento Café
Amargo.
Na ocasião, a denúncia foi desqualificada pelo
Conselho Nacional do Café (CNC) e pela Comissão Nacional do Café da
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Fonte: CUT Nacional
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