sábado, 17 de novembro de 2018

Política - Análise - Semeando o caos

Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo
Contra qualquer pragmatismo político, Bolsonaro segue demonstrando seu alinhamento à política externa de extrema-direita.
Na última semana tiveram imensa repercussão dois fatos relacionados às posições do novo governo brasileiro: o fim da participação dos médicos cubanos no programa Mais Médicos e a indicação de Ernesto Araújo para o Ministério das Relações Exteriores.
Embora não tenham relação direta entre si, os dois fatos são bastante ilustrativos da luta ideológica que Bolsonaro buscará travar em seu governo para justificar o completo alinhamento da política externa do Brasil às correntes mais radicais da extrema-direita em nível internacional.
O fim da participação dos médicos de Cuba no programa Mais Médicos se deu por iniciativa do governo cubano, é verdade, mas após insultos e ameaças de Bolsonaro ao país caribenho. Em nota oficial, o Ministério da Saúde Pública de Cuba afirma que “o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, com referências diretas, depreciativas e ameaçando a presença de nossos médicos, disse e reiterou que vai modificar os termos e condições do Programa Mais Médicos, desrespeitando a Organização Pan-Americana da Saúde e o que foi acordado por ela com Cuba, ao questionar a preparação de nossos médicos e condicionar sua permanência no programa à revalidação do título e como única forma a contratação individual”.
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Não se trata, porém, de um mero conflito diplomático. O fim da participação de Cuba no Programa Mais Médicos deve impactar o atendimento de cerca de 28 milhões de brasileiros e brasileiras em áreas pobres que dependiam dos médicos cubanos para ter atendimento médico assegurado.
Todos sabem que a oferta de médicos brasileiros para essas regiões é insuficiente, uma vez que parte considerável deles se recusa a atender a demanda existente fora dos grandes centros. Por isso, até mesmo prefeitos ligados a Bolsonaro reclamaram da postura do novo presidente, antevendo o impacto eleitoral do fim do programa nas eleições municipais, dentro de dois anos.
Na mesma semana, Bolsonaro anunciou o novo titular do Ministério das Relações Exteriores. Para espanto geral dos diplomatas brasileiros o indicado é Ernesto Henrique Fraga Araújo, um fanático que acredita que o aquecimento global é parte de uma trama marxista internacional, que a China ainda é maoista e que a globalização é dirigida pelo “marxismo cultural”.
Araújo é, nas palavras de Clóvis Rossi, um “Daciolo intelectualizado”: um seguidor de Olavo de Carvalho, guia ideológico de Bolsonaro e da extrema-direita brasileira, que quer fazer do Itamaraty um bunker em defesa dos valores judaico-cristãos ocidentais. Sua retórica se assemelha em tudo à de Anders Bering Breivik, militante de extrema-direita que executou 77 inocentes em Oslo, em julho de 2011.
Para Breivik, um conservador radical e autoproclamado membro dos cavaleiros templários, as grandes ameaças ao modo de vida ocidental e à cristandade moderna são o marxismo cultural e o Islã. Suas posições são ultranacionalistas, homofóbicas, racistas e antifeministas.
O novo chanceler brasileiro, por sua vez, afirma que “se Sócrates chegasse hoje e, usando seu famoso método, começasse a perguntar: o que é racismo, o que é justiça social, o que são direitos humanos, o que é um direito, o que é humano, e se pusesse a desmascarar a inanidade intelectual e a superficialidade destes e de outros conceitos, seria novamente condenado a beber cicuta”.
A comparação entre Araújo e Breivik é forte, mas inevitável. O autor dos atentados na Noruega compartilhava do ódio ao marxismo e à globalização que marcam as visões de mundo do novo chanceler brasileiro.
Ambos acreditam que “racismo” ou “direitos humanos” são conceitos que merecem desprezo e os dois defendem que os valores do cristianismo ocidental (seja lá o que isso signifique) estão ameaçados por uma trama internacional liderada por liberais e socialistas.
Nos dois casos – dos médicos cubanos e da indicação de Araújo ao Itamaraty – Bolsonaro mostra que a ideologia de extrema-direita deve ficar acima do pragmatismo. Muitos analistas do mercado e da grande imprensa apoiaram Bolsonaro no segundo turno acreditando que sua retórica fundamentalista tinha função meramente simbólica, isto é, servia apenas para “mobilizar a tropa” contra as forças de esquerda.
Ao chegar ao Palácio do Planalto, acreditavam esses apoiadores, o novo presidente adotaria o pragmatismo de Trump e não buscaria acirrar ainda mais os conflitos ideológicos da eleição. Ledo engano.
A indicação de Araújo e o rompimento do convênio com Cuba mostram, para desespero dos liberais tupiniquins que o apoiaram, que Bolsonaro está mais perto do modelo polonês do que dos EUA. Na Polônia, o governo do partido Lei e Justiça aposta na guerra ideológica para alimentar seu populismo de extrema-direita baseado no ultranacionalismo.
O partido chegou ao poder em 2015, ano da crise migratória, e defende uma “contrarrevolução cultural” nos moldes de Olavo de Carvalho. Acumulou poder e agora começa a perseguir adversários.
Segundo reportagem do El País, o governo polonês limitou os subsídios ao terceiro setor, eliminou do currículo escolar qualquer menção aos temas de educação sexual e limitou até o acesso à pílula do dia seguinte. A promoção das origens cristãs é a base de sua ideologia, mas o partido também difunde um discurso de ódio contra o multiculturalismo, as mudanças sociais, os gays, o feminismo e até os ecologistas. Qualquer semelhança entre Bolsonaro e Kaczynski não é mera coincidência.
Está evidente que o fim da participação de Cuba no programa Mais Médicos trará enormes prejuízos ao atendimento médico no interior do Brasil. Mas que outros transtornos Ernesto Araújo e Bolsonaro podem trazer ao país colocando sua ideologia de extrema-direita no comando da política externa brasileira?
Após o segundo turno, Bolsonaro e seu guru econômico, Paulo Guedes, dispararam contra Cuba, o Mercosul e anunciaram a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, ameaçando as relações comerciais com os países árabes. Além disso, na pré-campanha, Bolsonaro já havia visitado Taiwan, o que desagradou os chineses, que divulgaram editorial criticando o futuro presidente brasileiro.
Somados, os países com os quais Bolsonaro entrou em choque esse ano somam U$ 81,7 bilhões das exportações brasileiras. Só com a China, o superávit da balança comercial já alcança U$ 23 bilhões em 2018.
Ou seja, se Bolsonaro desenvolver uma política externa baseada nas paranoias de seus ideólogos de extrema-direita, como indicam as decisões tomadas essa semana, ele semeará o isolamento político e econômico. Com isso, aprofundará a crise e promoverá um caos social nunca antes visto, trazendo mais sofrimento e miséria ao povo brasileiro.
*Juliano Medeiros é presidente nacional do PSOL
Fonte: CARTA CAPITAL

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