“O socialismo continua sendo uma necessidade objetiva da
evolução da civilização humana. E, nessa ótica, o socialismo e a sociedade sem
classes, o comunismo, são o ideal supremo a justificar a existência e a
atividade do Partido Comunista”.
Por José
Reinaldo Carvalho*
O ensaio
sobre os 100 anos da revolução soviética “A revolução do socialismo e
internacionalismo proletário” foi escrito pelo jornalista e Secretário de
Política e Relações Internacionais do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), José
Reinaldo Carvalho. Este texto, do qual publicamos, abaixo, uma versão resumida,
serviu como base para a intervenção de José Reinaldo no dia 02 de novembro
durante o Encontro Internacional de Partido Comunistas e Operários (EIPCO), que
está ocorrendo em São Petersburgo e Moscou, com a presença de 103 organizações
revolucionárias. A delegação do PCdoB no 19º EIPCO, contou ainda com as
participações de Jandira Feghali, deputada federal e membro do Comitê Central
do PCdoB e Socorro Gomes, presidenta do Conselho Mundial da Paz (CMP) e também
membro do CC. Em nome do PCdoB, José Reinaldo leu sua intervenção da tribuna do
palácio Tauride (Tavrichesky, em russo) onde em 1917 Vladimir Lênin apresentou
as célebres Teses de Abril. Nesse link o leitor
tem acesso ao texto completo do ensaio ou pode baixar a versão em PDF – A
Revolução do socialismo e internacionalismo proletário.
“Comemora-se
em todo o mundo no dia 7 de novembro o centenário do mais importante
acontecimento político e social da história da humanidade – a Grande Revolução
Socialista na Rússia. Os meios de comunicação das classes dominantes estão
repletos de artigos e ensaios enxovalhando a revolução e a construção do
socialismo. Procuram rebaixar o significado da efeméride e mandam sua depressiva
mensagem: nada a comemorar. Mas o proletariado consciente, os partidos
comunistas e revolucionários, os amantes da paz, os que combatem em todo o
mundo por transformações políticas e sociais, opondo-se à barbárie capitalista,
têm sim, tudo a comemorar.
Foi uma
epopeia que se escreveu não apenas durante os breves e intensos “dez dias que
abalaram o mundo”, mas uma gesta iniciada muito antes, pelo “grande povo
russo”, para usar a expressão de seu maior escritor, Leon Tolstói. Na Revolução
russa, pensadores revolucionários e homens de ação de épocas anteriores,
ativistas políticos, agitadores e organizadores da luta contra a autocracia
czarista e, desde o início do século 20, o Partido Bolchevique, sob a direção
de Lênin, com todos os revolucionários de sua geração, desempenharam papel
decisivo, quando se exigiu a intervenção do fator subjetivo. Mas sem a plena
mobilização da atividade criadora das massas populares, fruto de prolongado e
aturado acúmulo de forças, não é possível o progresso social nem empreender o
salto civilizacional. O que, por sua vez, requer o protagonismo das massas e
das classes, condição determinante para o desempenho do papel do indivíduo.
Na sociologia
e na historiografia do período pré-marxista, assim como nos tempos atuais, de
hegemonia do pensamento burguês, predomina a opinião de que o papel
determinante no desenvolvimento da sociedade é desempenhado pela “grandes
figuras”, “os eleitos”, a chamada elite, enquanto as massas populares não são
outra coisa senão mão de obra e “carne de canhão”, uma multidão passiva,
ignorante, sem capacidade criadora, que se dirige às cegas para onde as
conduzem os líderes. Esta manifestação de idealismo e subjetivismo teve a sua
mais completa refutação na Revolução russa e toda a torrente de acontecimentos
subsequentes, ao longo de décadas de construção do socialismo.
A revolução
vitoriosa em 1917, com a consequente instauração do regime socialista e o
início da construção da nova sociedade, trouxe para a cena dos conflitos
sociais e geopolíticos a contradição entre os dois sistemas opostos, o
socialista e o capitalista.
Na vitória da
Revolução russa foi decisivo o papel dirigente desempenhado pela classe
operária, por meio do Partido Bolchevique. O proletariado russo dentro de um
tempo curto tinha feito duas revoluções democrático-burguesas e conquistado
autoridade como dirigente do povo na luta contra o absolutismo, para derrubar a
burguesia e instaurar a ditadura do proletariado.
Criou-se no
país uma grande força social: a aliança da classe operária com o campesinato
pobre, o qual, pela própria experiência e o grande trabalho dos bolcheviques,
convenceu-se de que somente sob a direção do proletariado conquistaria a
liberdade, a terra, a paz. A organização dos sovietes como poder revolucionário
era a encarnação dessa aliança.
A condição
decisiva para a vitória foi a direção política-ideológica do Partido
Bolchevique, que entrelaçou a verdade geral do marxismo-leninismo com a prática
revolucionária do próprio país. Ele conseguiu unir a luta do proletariado pelo
socialismo, a luta dos camponeses pela terra e contra a exploração e a
violência dos latifundiários, a luta de libertação nacional dos povos oprimidos
da Rússia contra a opressão nacional e luta de todo o povo contra a guerra
imperialista. O Partido conseguiu separar as massas da influência dos partidos
oportunistas e derrotou as suas tentativas e do Governo Provisório de impedir o
desenvolvimento e a vitória da revolução socialista.
Variados
fatores externos, que abordaremos adiante com mais detalhes na sequência
influíram na vitória da Revolução de Outubro.
Peculiaridades do auge revolucionário
Peculiaridades do auge revolucionário
O auge
revolucionário na Rússia, entre fevereiro e outubro de 1917 foi marcado por um
fenômeno peculiar, cuja solução foi a insurreição armada e a tomada do poder
pelos bolchevique: a dualidade de poderes surgida a partir da Revolução de
Fevereiro.
As
contradições de classe na Rússia se agravaram ainda mais durante a Primeira
Guerra Mundial. O proletariado sofria a dupla exploração dos capitalistas
nacionais e estrangeiros. Mais da metade do proletariado concentrava-se em
grandes empresas. Esta concentração facilitava a organização e dava força à sua
luta. A feroz exploração, o regime policial, a luta imperialista e a constante
atividade do Partido Bolchevique entre as massas faziam com que o movimento
operário assumisse acentuado caráter político.
Os quadros e
agitadores bolcheviques atuavam vivamente entre as massas nas cidades, no campo
e no front de guerra. Em cada greve e ação de massas ouviam-se as palavras de
ordem “Abaixo o czarismo!” “Abaixo a guerra!”. Em 27 de fevereiro de 1917,
essas manifestações se transformaram em insurreição em Petrogrado. Os
trabalhadores explodiram depósitos de armas, armaram-se e politicamente se
forjou a aliança com os soldados, em sua maioria camponeses. Os soldados não só
se recusaram a atirar contra os insurretos, mas na maioria dos casos se uniram
a eles. Em uma semana o poder do czar foi derrubado em toda a Rússia.
Realizava-se, assim, o programa mínimo do Partido Bolchevique e a primeira
etapa da revolução russa, que tinha começado em 1903.
É a partir
daqui que surge este fenômeno original da Revolução Russa que foi a dualidade
de poderes, a característica marcante de todo o desenvolvimento da situação
política do país até a tomada do poder pelos bolcheviques, nove meses depois. A
caracterização de tal situação e o manejo tático e estratégico concentraram a
disputa de posições políticas e condutas práticas entre os principais sujeitos
políticos do processo revolucionário russo: mencheviques,
socialistas-revolucionários e bolcheviques.
A análise de
Lênin sobre o momento histórico que a Rússia atravessava após a revolução de
fevereiro e o rigor com que tratava o novo governo democrático constituem um
desmentido a todas as falsificações da história que tentam traçar um perfil do
líder revolucionário antagônico ao que ele de fato foi. Em As tarefas do
proletariado na nossa revolução, o líder bolchevique caracteriza em termos
rigorosos o poder surgido da revolução de fevereiro:
“O velho
poder czarista, que representava apenas um punhado de latifundiários feudais,
que comandava toda a máquina do Estado (exército, polícia, funcionalismo), foi
derrotado, afastado, mas não recebeu o golpe de misericórdia” (…) “O poder de
Estado passou na Rússia para as mãos de uma nova classe, a saber: da burguesia
e dos latifundiários aburguesados. Nesta medida a revolução
democrático-burguesa na Rússia está terminada”(…) Encobrindo-se com uma
fraseologia revolucionária, este governo nomeia para os postos de comando
partidários do antigo regime. Este governo esforça-se para reformar o menos
possível todo o aparelho da máquina de Estado (exército, polícia, burocracia),
pondo-o nas mãos da burguesia. O novo governo começou já a pôr toda a espécie
de obstáculos à iniciativa revolucionária das ações de massas e à conquista do
poder pelo povo a partir de baixo – única garantia de êxitos reais da
revolução” (…)
Depois de
arrolar uma série de outras razões, Lênin chegava à conclusão de que “o novo
governo burguês não merece, nem mesmo no campo da política interna, nenhuma
confiança do proletariado, e é inadmissível que este lhe preste qualquer
apoio”.
Em março de
1917, os sovietes de deputados operários, camponeses e soldados, criação
tipicamente popular, peculiar das etapas anteriores da Revolução Russa (1903),
irromperam com inaudita força política e orgânica. Pela via revolucionária
conquistaram as liberdades democráticas, libertaram os prisioneiros políticos e
instauraram comitês representativos dos soldados ao lado dos comandos
militares. Era um momento de ebulição, revolvimento das classes sociais, em que
a numerosa pequena burguesia imprimia ao processo o caráter política e
ideologicamente flutuante, próprio de seu caráter de classe. Pela força
numérica dos seus partidos – os socialistas-revolucionários e os mencheviques –
a pequena burguesia dava o tom do movimento revolucionário e hegemonizava os
sovietes, em disputa com os bolcheviques. Predicavam o caráter burguês da
revolução e consideraram imperioso apoiar incondicionalmente o Governo
Provisório.
Assim, como
resultado da vitória da revolução democrático-burguesa de fevereiro e da
derrocada da autocracia czarista, foram criados simultaneamente dois poderes
das classes opostas: de um lado, o poder dos operários e camponeses,
representado pelos sovietes, que constituíam a única organização ampla e
democrática dos trabalhadores, camponeses e militares revolucionários, e, de
outro lado, o poder da burguesia, representado pelo Governo Provisório.
A dualidade
de poderes não podia continuar por longo tempo; terminaria com a consolidação
do poder da burguesia ou com a emergência do poder dos trabalhadores, questão
que só seria resolvida pela luta política de classes.
O povo armado
criou os sovietes de deputados operários, camponeses e de soldados como órgão e
poder e obedecia somente a estes, por isso o Governo Provisório não podia
exercer seu poder sem a aprovação dos sovietes. A burguesia foi temporariamente
obrigada a substituir a política de violência contra o povo por uma política de
engodo. O Governo Provisório mantinha-se graças ao apoio dos chefes
socialistas-revolucionários e mencheviques. Tentava ganhar tempo a fim de se
fortalecer e visava a despertar nas massas a ilusão no parlamentarismo burguês,
fazendo esforços para enganá-las declarando que o problema da paz, da terra e
do pão se resolveria por um órgão “representativo do povo”. Enquanto isso, a
própria eleição desse órgão, a Assembleia Constituinte, era adiada.
O Partido
Bolchevique lançou a palavra de ordem de desconfiança completa no Governo
Provisório. Atuava para afastar as massas da influência dos
socialistas-revolucionários e dos mencheviques e esclarecê-las de que as
demandas em nome das quais foi feita a revolução não poderiam ser atendidas pelo
Governo Provisório. Os bolcheviques também explicavam às massas que o Governo
Provisório não daria a terra aos camponeses, porque a maioria das terras
estavam hipotecadas aos bancos. Por outro lado, estando ligado aos
imperialistas da Entente, o Governo Provisório era a favor da continuidade da
guerra imperialista e pensava que a vitória militar lhe daria possibilidade de
impedir a continuidade da revolução.
A conquista
da liberdade, da terra, da paz e do pão só poderia ser assegurada pelo poder do
proletariado. Assim, era necessário derrubar o Governo Provisório e seus
apoiadores. Por isso, Lênin terminou seu primeiro discurso em Petrogrado,
depois de retornar do exterior, com o chamamento “Viva a Revolução Socialista!”
O poder político, essência da revolução
Quando se torna necessário substituir a velha ordem por uma nova, as classes reacionárias recorrem a todos os meios de que o Estado dispõe, incluindo a violência, o que pressupõe não apenas fatos episódicos, mas uma violência sistêmica. O Estado monopolizado pelas classes dominantes assume manifestamente sua essência ditatorial por meio de diferentes formas de governo, incluindo aquelas em que as liberdades individuais e coletivas são negadas. É isto que torna indispensável a destruição da máquina estatal burguesa como condição para construir instituições estatais novas, que abram caminho ao exercício do poder pelas classes trabalhadoras.
O poder político, essência da revolução
Quando se torna necessário substituir a velha ordem por uma nova, as classes reacionárias recorrem a todos os meios de que o Estado dispõe, incluindo a violência, o que pressupõe não apenas fatos episódicos, mas uma violência sistêmica. O Estado monopolizado pelas classes dominantes assume manifestamente sua essência ditatorial por meio de diferentes formas de governo, incluindo aquelas em que as liberdades individuais e coletivas são negadas. É isto que torna indispensável a destruição da máquina estatal burguesa como condição para construir instituições estatais novas, que abram caminho ao exercício do poder pelas classes trabalhadoras.
Não se trata
apenas de uma mudança de governo, de alterações nos gabinetes ministeriais, de
alternância entre partidos que representam diferentes facções das classes
dominantes ou mesmo interesses imediatos e parciais dos trabalhadores, por meio
de eleições. Mas de uma tarefa complexa que envolve as forças armadas, os
aparatos policiais, o poder judiciário, a administração, o sistema educacional,
a mídia etc.
Diferentes
setores da social-democracia, alguns invocando Marx e Engels e opondo-os a
Lênin argumentaram em sentido contrário, apresentando como conceito
ultrapassado a destruição do aparato estatal do Estado burguês enquanto tarefa
essencial da revolução dos trabalhadores. Substituíram este conceito por
diferentes tipos de “controle” e “mudanças democráticas” que levariam a uma
transformação gradual do caráter do Estado. Na verdade, a rejeição à ideia de
derrocada do estado burguês se confunde aqui com o próprio rechaço à ideia de
revolução, que pode assim ser substituída por um fantasioso exercício do “poder
democrático” mediante reformas, colaboração de classes, desenvolvimento
cultural e civilizacional, impulsionados por coalizões democráticas, lutas
eleitorais, compartilhamento de gestão, incluindo a cooperação internacional.
A essência do
poder da revolução é constituir-se como o novo tipo de Estado que expressa e
defende os interesses e aspirações vitais da classe operária e demais massas
trabalhadoras, um instrumento para enfrentar as classes até então dominantes e
construir o socialismo. O caráter de classe e a missão do poder de Estado dos
trabalhadores se manifesta em todas as ações que realiza.
Viragem estratégica e tática
Viragem estratégica e tática
O ponto de
viragem na estratégia e na tática revolucionária do Partido Bolchevique, em
1917, foi a elaboração programática de Lênin sintetizada nas famosas “Teses de
Abril”, que constituíram o plano do Partido Bolchevique para a passagem da
primeira etapa da revolução, em que a burguesia empalmou o poder, à segunda
etapa, que derrocaria a burguesia e instauraria o poder dos trabalhadores. Para
alcançar esse objetivo, era indispensável que o Partido Bolchevique
conquistasse as massas populares. Por isso Lênin propôs que o Partido saísse à
frente do movimento revolucionário e conquistasse no calor da luta a autoridade
de dirigente das massas; que realizasse um trabalho persistente e paciente,
para convencer as massas de que suas demandas só seriam atendidas se o Partido
Bolchevique conquistasse o poder; e que explorasse os erros táticos do Governo
Provisório e dos partidos menchevique e socialista-revolucionário, a fim de
desmascará-los aos olhos das massas e afastá-las da sua influência.
Em 18 de
abril de 1917, o Governo Provisório declarou que continuaria a guerra “até a
vitória final”. O Partido Bolchevique explorou esse erro tático e dirigiu as
grandes manifestações de 20 e 21 de abril com as palavras de ordem “Abaixo a
Guerra!” e “Todo o poder aos sovietes!” A burguesia utilizou os métodos
habituais de dividir o movimento operário e o povo; criou o governo de coalizão
no qual ao lado dos representantes da burguesia entraram os socialistas
revolucionários e os mencheviques. Este ato de traição fez com que a vanguarda
da classe operária, o proletariado industrial, se ligasse mais estreitamente
com os bolcheviques. Apesar disso, no primeiro Congresso dos Sovietes de toda a
Rússia, realizado em junho em Petrogrado, a maioria dos delegados ainda era
composta por socialistas revolucionários e mencheviques, que demandaram o apoio
ao governo de coalizão. Defenderam a coalizão com a burguesia, afirmando que na
Rússia não havia nenhum partido político em condições de tomar e manter todo o
poder. Lênin respondeu: “Há um tal partido, o nosso partido não recusa isto,
está pronto para em qualquer situação tomar o poder”. Lênin argumentou que
somente o poder do proletariado poderia dar a terra aos camponeses, o pão aos
trabalhadores, e lutar contra a guerra imperialista e por uma paz democrática e
justa.
Compartilhando
o poder, socialistas revolucionários e mencheviques adotaram o discurso da
burguesia russa sobre a guerra, que já não tinha caráter imperialista, mas
seria uma “guerra em defesa da revolução”.
O ambiente
geral favorecia a luta, mas não tinha ainda amadurecido a situação
revolucionária propícia à insurreição armada, tarefa decidida pelo 6º Congresso
do Partido Bolchevique, realizado na ilegalidade em julho de 1917. As massas
trabalhadoras urbanas e o campesinato ainda estavam fortemente influenciadas
pelos socialistas revolucionários e mencheviques. A insurreição dos
trabalhadores de Petrogrado ficaria isolada e se fosse precipitada a vanguarda
do proletariado seria destruída.
Contrariando
todas as teses estereotipadas de que a Revolução foi um golpe de Estado, fruto
do voluntarismo leninista, num magistral texto intitulado “Sobre os
Compromissos”, de setembro de 1917, Lênin vislumbra, em face da evolução do
quadro político, a possibilidade do desenvolvimento pacífico da revolução, sob
determinadas condições.
Revelando
maestria no manejo tático, o líder revolucionário propunha um acordo com os
mencheviques e socialistas revolucionários para assegurar que todo o poder
fosse entregue aos Sovietes:
“O nosso
partido, como qualquer outro partido político, aspira ao domínio político para
si. O nosso objetivo é a ditadura do proletariado revolucionário. Meio ano de
revolução confirma, com extraordinária clareza, força e eloquência, a justeza e
a inevitabilidade dessa exigência, precisamente no interesse da revolução
atual, pois de outro modo o povo não obterá nem uma paz democrática, nem a
terra para os camponeses, nem a completa liberdade (uma república inteiramente
democrática). O curso dos acontecimentos em meio ano da nossa revolução, a luta
das classes e dos partidos, o desenvolvimento das crises de 20-21 de Abril, de
9-10 e 18-19 de Junho, de 3-5 de Julho e de 27-31 de Agosto mostraram-no e
demonstraram-no.
Agora começou
na revolução russa uma viragem tão brusca e tão original que, como partido,
podemos propor um compromisso voluntário, não certamente à burguesia, nosso
inimigo de classe principal e direto, mas aos nossos adversários mais próximos,
os partidos pequeno-burgueses democráticos “dirigentes”, os socialistas-revolucionários
e os mencheviques.
Só como
exceção, só por força de uma situação especial que, evidentemente, se manterá
apenas por um período muito curto, podemos propor um compromisso a estes
partidos e, em minha opinião, devemos fazê-lo.
Compromisso
é, da nossa parte, o nosso regresso à reivindicação de antes de Julho: todo o
poder aos Sovietes, governo de socialistas-revolucionários e mencheviques,
responsável perante os Sovietes.
Agora e só
agora, e talvez durante alguns dias apenas, ou uma-duas semanas, um tal governo
poderia criar-se e consolidar-se de modo inteiramente pacífico. Poderia
garantir com uma probabilidade gigantesca um movimento pacífico para a frente
de toda a revolução russa e possibilidades extremamente grandes de grandes
passos em frente do movimento mundial para a paz e a vitória do socialismo.
O compromisso
consistiria em que os bolcheviques, sem pretender uma participação no governo
(impossível para um internacionalista sem a realização efetiva das condições da
ditadura do proletariado e do campesinato pobre), renunciassem à apresentação
imediata da reivindicação da passagem do poder para o proletariado e para os
camponeses pobres e aos métodos revolucionários de luta por esta reivindicação.
Lênin
apresentava suas condições para o compromisso: “A condição, por si mesmo
evidente e não nova para os socialistas-revolucionários e mencheviques seria a
plena liberdade de agitação e a convocação da Assembleia Constituinte sem novos
adiamentos, ou mesmo num prazo mais breve.
Os
mencheviques e os socialistas revolucionários, como bloco governamental,
concordariam (supondo que o compromisso se realizava) em formar um governo
inteira e exclusivamente responsável perante os Sovietes, com a transmissão
para as mãos dos Sovietes de todo o poder, incluindo o local. Nisto consistiria
a “nova” condição.
Por mais
difícil que seja agora (depois de Julho e Agosto, dois meses que equivalem a
duas décadas de tempos sonolentos, “pacíficos”) esse compromisso, parece-me que
existe uma pequena possibilidade para a sua realização, e essa possibilidade é
criada pela decisão dos socialistas-revolucionários e mencheviques de não
entrar num governo juntamente com os democratas-constitucionalistas”.
O fim da dualidade de poderes e a insurreição
O fim da dualidade de poderes e a insurreição
O Governo
Provisório cumpria os desígnios das classes dominantes, no que não poupava
ameaças ao movimento revolucionário. O presidente do Governo Provisório,
Kerenski, chegou a ameaçar reprimir “a ferro e fogo” as ações comandadas pelos
bolcheviques. A burguesia ameaçava instaurar uma ditadura militar. Até a
restauração monárquica era considerada uma opção válida. Nesse quadro entra em
ação o golpe o general Kornílov, que juntamente com os imperialistas da
Entente, investiu contra a base principal dos bolcheviques em Petrogrado, em
agosto de 1917. Os bolcheviques fizeram um chamamento aos operários e soldados
da cidade para enfrentar com armas a contrarrevolução. Os trabalhadores
responderam a esse chamamento criando novas unidades da Guarda Vermelha. Os
agitadores bolcheviques esclareceram os militares dos batalhões de Kornilov
sobre os objetivos do complô contrarrevolucionário desse general. Tudo isso fez
com que as forças contrarrevolucionárias fossem derrotadas graças à luta das
massas sob a direção dos bolcheviques.
A derrota do
complô de Kornilov mudou inteiramente a correlação de forças entre a revolução
e a contrarrevolução. Já não era possível seguir a política de conciliação dos
socialistas revolucionários e dos mencheviques com os capitalistas e
latifundiários. Os camponeses compreenderam que por trás das pretensões de
instaurar a ditadura militar estavam os latifundiários que não queriam entregar
a terra aos camponeses e que a política dos socialistas-revolucionários,
independentemente de suas intenções, servia a esses propósitos. Os soldados se
convenceram de que o governo burguês pretendia prosseguir a guerra
imperialista. Para os trabalhadores das nações oprimidas tornou-se claro que se
fosse instaurada a ditadura militar seria impossível acabar com a opressão
nacional.
Os
acontecimentos se precipitavam. Durante os meses de setembro e outubro foram
tomadas medidas para a preparação militar dos trabalhadores; foram dadas
orientações e atribuídas tarefas aos marinheiros no Báltico e batalhões
militares revolucionários. A insurreição em Petrogrado e em Moscou aceleraria a
vitória da revolução em todo o país. Também a burguesia concentrava forças
contrarrevolucionárias na capital. O tempo não esperava. Em 10 de outubro de
1917 na reunião do Comitê Central do Partido Bolchevique foi aceita a proposta
de Lênin de organizar imediatamente a insurreição armada. Sob a direção do
Partido Bolchevique criou-se o Comitê Militar Revolucionário para a preparação
e direção da insurreição. Ao descobrir o plano insurrecional, o governo burguês
enviou em 24 de outubro as forças contrarrevolucionárias para atacar sedes e
jornais do Partido Bolchevique. A Guarda Vermelha rechaçou essas forças. O
jornal do Partido saiu com um chamamento ao povo para derrubar o Governo
Provisório. Lênin chegou clandestinamente ao Smolni, onde estava o Comitê
Central do Partido Bolchevique e se pôs à frente do centro dirigente da
revolução. Sem esperar a reunião do 2º Congresso dos Sovietes de toda a Rússia,
a insurreição armada começou em 24 de outubro de 1917. À noite, os batalhões
operários ocuparam escritórios governamentais, correios, estações de trem,
pontes etc. O cruzador “Aurora” apontou seus canhões para o Palácio de Inverno,
onde estava o Governo Provisório. O Palácio de Inverno foi cercado pela Guarda
Vermelha e os marinheiros do Báltico. Na manhã de 25 de outubro proclamou-se a
queda do Governo Provisório.
Na noite de
25 de outubro (7 de novembro), o Palácio de Inverno foi atacado e invadido. Os
membros do Governo Provisório foram presos. Em Petrogrado triunfou a
insurreição armada, preparada e dirigida pelo Partido Bolchevique liderado por
Lênin. Caiu o poder da burguesia. Começava uma nova era.
Com a vitória
da Revolução Socialista de Outubro, a instauração do poder soviético na Rússia,
realizou-se a segunda etapa da Revolução: a da transformação da revolução
democrático-burguesa em revolução socialista.
Nesse
contexto, a premissa para a tática e a estratégia leninistas foi a análise do
caráter da época, a partir da identificação das contradições fundamentais do
sistema capitalista chegada à etapa imperialista: a contradição entre o
trabalho e o capital, agravada com o advento dos monopólios e o capital
financeiro; a contradição entre as nações e os povos oprimidos e o
imperialismo, gerada pela pressão e a exploração dos povos, com as políticas
neocolonialistas, com a cumplicidade da burguesia reacionária de cada país
onde, de uma ou outra maneira, se submetiam à sua influência; a nova realidade
do sistema capitalista na etapa imperialista gerou também a contradição entre
as potências em luta por uma nova divisão do mundo.
O contexto externo – a guerra mundial
O contexto externo – a guerra mundial
Na cadeia de
acontecimentos que fazem parte do desencadeamento deste grande conflito que foi
a Primeira Guerra Mundia, lugar de destaque é atribuído pela historiografia ao
assassinato do herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, Franc Ferdinand, em
Saraievo, por um membro de uma organização nacionalista sérvia, a 27 de junho
de 1914.
Foi o
pretexto para que rufassem os tambores de guerra e os canhões começassem a
troar. Os círculos mais agressivos daquele império exploraram o fato para
atacar e ocupar a Sérvia, o que, na conjuntura geopolítica da época, só podia
ser feito após entendimentos com a Alemanha, grande potência em ascensão.
Os
imperialistas germânicos consideravam que a situação era favorável para fazer a
guerra, tendo em conta que a Rússia e a França, potências rivais, não estavam
militarmente preparadas. Pesavam ainda no julgamento alemão as dificuldades
momentâneas da Inglaterra, envolvida no conflito interno em torno da questão
irlandesa.
O debate
principal entre as forças do socialismo envolvia duas posições antagônicas –
participar do esforço de guerra ao lado da própria burguesia ou transformar a
guerra imperialista em luta revolucionária. As lideranças dos partidos
socialistas da Inglaterra, França, Alemanha, Áustria-Hungria, entre outros,
assumiram o lado da “suas” burguesias, fazendo chamamentos aos trabalhadores a
“defender a pátria” numa guerra injusta.
Para Lênin, a
posição que os socialistas tomaram posteriormente levou o movimento a uma fatal
divisão e à bancarrota da Internacional Socialista.
Lênin
insistia em que os revolucionários deviam compreender as causas desse fracasso.
Ele considerava que a essência ideológica e política do oportunismo da Segunda
Internacional era a substituição da luta de classes pela colaboração entre as
classes, a negação do caminho e dos métodos da luta revolucionária.
O Partido
Bolchevique, dirigido por Lênin, encetou uma luta sem quartel contra o
imperialismo e os oportunistas da Segunda Internacional. Foi incansável a
atividade dos bolcheviques russos para desmascarar o caráter imperialista da
guerra.
Foi com esse
pano de fundo que os bolcheviques elaboraram uma tática revolucionária, que se
expressava na palavra de ordem – “Transformar a guerra imperialista em guerra
civil!” – o que na prática significava dizer aos trabalhadores recrutados para
as fileiras dos exércitos beligerantes que apontassem suas armas contra as
próprias burguesias e governos, e tomassem o poder político.
Esta posição
tornou-se um divisor de águas no seio do movimento socialista internacional, no
qual surgiu também uma ala de esquerda revolucionária e internacionalista. No
seio do mais poderoso partido social-democrata da época, o alemão, foi formado,
em 1916, o grupo “Spartacus”, sob a liderança de Rosa Luxemburgo e Karl
Liebknecht, o único deputado que no parlamento votou contra o orçamento para a
guerra.
Desde então
guerra e paz, estratégia e tática revolucionárias, socialismo e
internacionalismo são exigentes temas que polarizam os partidos e organizações
dos trabalhadores em todo o mundo.
Revolução internacionalista
Revolução internacionalista
O conjunto
das realizações da Revolução de Outubro e da luta pela construção do socialismo
que se lhe seguiu tem conteúdo e forma de acontecimentos épicos e não há
propaganda negativa nem leitura niilista, nem mesmo a renúncia capitulacionista
a seu legado que apaguem essa epopeia da memória dos povos ou esgotem sua força
inspiradora nos atuais e futuros embates revolucionários.
Essa força
inspiradora provém dos seus grandiosos feitos e de sua repercussão
internacional. A Revolução Russa tornou-se paradigmática para o mundo porque fez
saltar pelos ares um império reacionário, que Lênin chamava de “prisão dos
povos”. Sobre seus escombros, surgiu ao cabo de uns poucos anos uma nova
civilização humana, uma economia desenvolvida, um povo culto e digno. Sob a
influência soviética cresceu o movimento operário nos países capitalistas,
desenvolveu-se a luta anticolonial nos países dependentes. A Revolução Russa
soergueu um Estado soberano e instrumentalizou um Exército poderoso que se
constituiu na força capaz de derrotar o mais feroz inimigo da humanidade – o
nazi-fascismo. A Revolução Russa e o socialismo soviético estiveram presentes
como inspiração, influência indireta e apoio moral na grande Revolução chinesa,
na Revolução cubana, na Resistência vietnamita. Até mesmo a adoção, pelos países
capitalistas, do Estado de “bem-estar” resultou, a par das lutas sindicais e
políticas nos países capitalistas, da influência da Revolução de Outubro e do
socialismo na URSS.
A Revolução
Socialista de Outubro e o Estado soviético por ela fundado exerceram enorme
impacto no mundo e influência na organização e levantamento do movimento
revolucionário mundial. Mostraram às massas trabalhadoras de outras nações o
caminho da luta emancipadora, inspiraram-nos com a força do exemplo,
impulsionaram o movimento operário e de libertação nacional durante toda uma
época histórica. A Revolução de Outubro impactou nas lutas contra o sistema
capitalista tanto nas metrópoles quanto nas colônias e países dependentes e
aprofundou ainda mais a crise desse sistema.
A Revolução
russa e a subsequente construção do socialismo no país eurasiático se
produziram em circunstâncias mundiais e nacionais peculiares, cuja expressão
geopolítica mais importante, à época, foi a Primeira Guerra Mundial. O
esgotamento do regime czarista criou as condições para a eclosão de movimentos
revolucionários, desde o início do século 20 (revolução democrática de
1903-1905).
A Revolução
de Outubro quebrou a frente do imperialismo mundial, derrubou a burguesia na
Rússia, levou ao poder o proletariado em um sexto do território mundial e criou
as condições para a liquidação de todas as formas de exploração e opressão do
homem pelo homem.
A vitória da
revolução abriu uma nova época na história contemporânea, a época da revolução
proletária e nacional-libertadora, da criação da frente revolucionária do
proletariado e dos povos oprimidos contra o imperialismo.
Por todas
essas razões, a Revolução de Outubro foi uma revolução com caráter
internacionalista.
O agravamento
das contradições de classe e a influência das lições da Revolução de Outubro
fizeram que desde 1918 se desenvolvessem grandes batalhas de classes na Europa
e na Ásia.
Nenhum outro
acontecimento político-social, como a Revolução Russa, materializou com tamanha
dimensão a palavra de ordem lançada seis décadas antes por Marx: “Proletários
de todos os países, uni-vos”! Se bem não tenha resultado na revolução
proletária mundial – esta era a expectativa dos bolcheviques e de todo o
movimento revolucionário à época -, a revolução socialista de 1917 teve extraordinário
impacto internacional, exerceu influência direta sobre acontecimentos
subsequentes, mudou a face do mundo e deixou marca indelével em todo o século
20.
Mudava a face
do mundo, abria-se nova época na história da humanidade. Realizada no auge da
guerra entre grandes potências que rivalizavam para dominar o planeta, a
Revolução russa estabeleceu o contraponto essencial com o sistema imperialista.
Desde então, a disjuntiva entre o capitalismo (imperialista) e o socialismo
tornou-se uma das contradições essenciais da época. Os embates políticos, as
guerras e as revoluções nacional-libertadoras e socialistas do século 20
eclodiram e desenvolveram-se tendo esses antagonismos como fatores objetivos
condicionantes.
O poder
estatal socialista que emergiu em 1917, internacionalista por natureza,
tornou-se o vetor preponderante na luta pela paz mundial e o progresso social,
um incontornável fator a neutralizar os efeitos da agressividade do
imperialismo e a influenciar positivamente as lutas dos trabalhadores e dos
povos.
Ecos da Revolução Russa no Brasil
Ao contrário
do que ocorrera na maioria dos países europeus, assim como na Argentina, no
Chile e Uruguai, o PC do Brasil não nasceu da ruptura de um grande e influente
partido social-democrata, mas de uma cisão no movimento anarquista. Foi dos
embates políticos e ideológicos entre os setores avançados do proletariado
brasileiro e sobretudo duma luta entre comunistas e anarquistas que resultou a
formação dos primeiros agrupamentos comunistas, que mais tarde se uniriam para
constituir o Partido Comunista do Brasil.
O historiador
brasileiro Nelson Werneck Sodré, marxista estudioso da história do Brasil e dos
comunistas, assinalou que o Partido Comunista “nasceu e cresceu como
consequência necessária do processo de formação da classe operária brasileira e
do desenvolvimento de suas lutas. Sua fundação respondeu a uma exigência do
movimento operário que já mostrara, nas primeiras décadas do século 20, a
carência de um partido político operário revolucionário”.
O documento
comemorativo do 90º aniversário do Partido Comunista do Brasil (2012) assinala:
“Quando o movimento operário brasileiro enfrentava uma crise de perspectiva, os
bons ventos da vitoriosa revolução socialista na Rússia, de 1917 – que já
sopravam pelo mundo –, chegaram ao Brasil. O triunfo dos trabalhadores russos
mostraria aos operários brasileiros um caminho novo: o da necessária
organização do proletariado em partido político independente, de classe, tendo
como objetivos a conquista do poder político e a implantação do socialismo”.
O Congresso
de fundação do Partido Comunista do Brasil realizou-se em 25, 26 e 27 de março
de 1922. Os dois primeiros dias de trabalho ocorreram na cidade do Rio de
Janeiro. Mas, devido a ameaças policiais, a sessão do último dia foi
transferida para Niterói. Contou com a participação de nove delegados que
representavam 73 comunistas. Já no início de sua existência, o Partido aderiu
às 21 condições para ser membro da Internacional Comunista.
Um balanço necessário: esplendores e sombras
A revolução
de 1917 foi propulsora do progresso social. Partindo de uma base econômica
atrasada, em poucas décadas a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
tornou-se um dos países mais prósperos e socialmente mais avançados do mundo.
Sobre os escombros do antigo regime, surgiu uma nova civilização humana, uma
economia desenvolvida, realizou-se imenso progresso material e espiritual,
conquistou-se a justiça, a igualdade, nasceu um povo culto e digno. São
incomparáveis as conquistas sociais, as reformas estruturais, os saltos
civilizacionais operados pelo novo ordenamento político do Estado proletário
baseado na aliança operário-camponesa.
A luta pelo
socialismo, como fenômeno histórico, é fruto também de suas circunstâncias. Na
Rússia o novo poder defrontou-se com a guerra civil em que as classes
derrocadas contaram com o apoio de 14 exércitos estrangeiros numa ação
contrarrevolucionária durante três anos.
Os primeiros
tempos da construção do novo regime conheceram o comunismo de guerra e a NEP –
Nova Política Econômica. Seguiram-se a conflitiva coletivização do campo e a
industrialização vertiginosa, em meio a uma luta de classes exacerbada e a
tumultuadas lutas políticas nos órgãos de governo e no partido dirigente.
Enquanto promovia a industrialização acelerada, o país viu-se diante da
circunstância de preparar-se para a guerra, num quadro mundial em que a
revolução, depois de um período de ascensão e de vitórias parciais na Alemanha,
Hungria e Sérvia, entrava em refluxo.
O Período de
industrialização acelerada, de fins dos anos 20 do século passado até o começo
da Segunda Grande Guerra, foi o mais florescente do ponto de vista econômico e
social, de um impressionante, incomparável e irrepetível desenvolvimento, em
que se exigiu tudo das massas trabalhadoras e do partido, período de
mobilização total, quando se trabalhava e vivia em permanente campanha e em
ambiente de cerco. Por outro lado, talvez residam nesse período – marcado por
uma acerba luta de classes, por atos de sabotagem e ameaças de agressão pelos
inimigos externos e internos, em que se exigiu também centralização absoluta no
comando da vida econômica como na política –, as causas estruturais para que o
regime soviético assumisse as características que assumiu, com resultados gloriosos,
mas também com erros que o debilitaram. O heroísmo da façanha soviética, e a
urgência do esforço de edificação somado à inexperiência, levaram a direção
comunista a atuar com a noção do socialismo pleno e mesmo do comunismo imediato
e ao abandono de qualquer ideia de transição longa. A mentalidade de cerco e a
necessidade de comando ultracentralizado para garantir a mobilização total e
permanente do povo fecharam o regime, que não chegara a desenvolver a
institucionalidade democrática socialista – a democracia de massas, popular,
dos sovietes, essência da ditadura do proletariado, segundo a formulação
clássica do marxismo-leninismo. Isto acabou por alienar da governação do país
as massas populares, o único sujeito criador e transformador da História. Não
se equacionou satisfatoriamente a antinomia entre o desenvolvimento extensivo e
o intensivo, com repercussões negativas na produtividade e no atendimento de
demandas básicas das massas populares quanto a bens e serviços.
Cada período
da construção do socialismo teve sua importância e história, próprias. Foram
circunstâncias que para o bem e o mal construíram o conjunto da obra e se
integraram no esforço criador da nova sociedade.
Uma luta sempre atual
Para os
comunistas, a Revolução triunfante em 1917 será sempre uma fonte de inspiração
nos combates que se realizam na atualidade, sob novas condições, na resistência
à ofensiva do sistema capitalista contra os trabalhadores e os povos e para
abrir caminho à nova etapa da luta pelo socialismo.
Objetivamente,
a extinção da União Soviética, no início dos anos 1990, marcou uma viragem
negativa na evolução do quadro mundial. Sendo resultado de uma
contrarrevolução, cujos primeiros sinais se manifestaram a partir do 20º
Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956), a derrota da
Revolução soviética implicou inaudito retrocesso na situação política
internacional, quadro em que a burguesia, o imperialismo e toda a reação
mundial arremetem contra todas as conquistas democráticas, sociais,
civilizacionais da humanidade.
A derrota do
socialismo, para a qual concorreram também fatores externos ligados à pressão e
ao cerco dos países imperialistas, criou uma situação inteiramente nova no
mundo. Como já assinalamos, no terreno das ideias deu azo à negação dos valores
da Revolução de Outubro. No terreno político ensejou o surgimento de uma
correlação de forças extremamente desfavorável aos que lutam por uma sociedade
liberta da exploração capitalista. Hoje é corrente a visão de que o socialismo
foi definitivamente derrotado e saiu da cena histórica como realidade e
perspectiva.
Não
compartilhamos esta visão. O socialismo continua sendo uma necessidade objetiva
da evolução da civilização humana. E, nessa ótica, o socialismo e a sociedade
sem classes, o comunismo, são o ideal supremo a justificar a existência e a
atividade do Partido Comunista. Ao reafirmarmos os princípios e os ideais de
Outubro de 1917, simultaneamente nos aferramos à realidade da época e à do país
em que atuamos. Hoje parece claro que está sepultada a ideia do “comunismo
súbito”. O exame atento da História indica que a construção do socialismo e o
alcance de uma sociedade tão avançada quanto o comunismo – sociedade sem
classes, reino da abundância, liberdade triunfante sobre a necessidade – é
tarefa para muitas gerações que atravessará diferentes épocas históricas.
Para os
comunistas brasileiros, a Revolução triunfante em 1917 será sempre uma fonte de
inspiração nos combates que se realizam, sob novas condições, na resistência à
ofensiva do sistema capitalista contra os trabalhadores e os povos e para abrir
caminho à luta pelo socialismo, nas novas condições do século 21.”
*Jornalista e
Secretário de Política e Relações Internacionais do PCdoB
Fonte: Resistência
Fonte: Resistência
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