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| Por Celso Lungaretti |
Qualquer cidadão que se tenha dado ao trabalho de
informar-se sobre a grande revolução russa do final de 1917; sua heroica
resistência à invasão de tropas de cerca de 20 nações que tentaram (ao mesmo
tempo que os reacionários locais) extirpá-la no nascedouro; e seu posterior
desvirtuamento sob Stálin, quando se tornou um mero capitalismo de Estado
regido por uma despóticanomenklatura, sabe muito bem que o tirano
bigodudo em nada diferia de Joseph Goebbels quanto à prática de falsificar
sistematicamente a História, com fins propagandísticos.
Em sua faina obsessiva de passar uma imagem
totalmente diferente do que ocorrera em 1917, minimizando a participação dos
seus muitos desafetos da velha guarda bolchevique (quase todos, mais dia, menos
dia, por ele exterminados), ao mesmo tempo em que engrandecia o próprio papel
naquelas jornadas em que não passara de um coadjuvante, Stálin mandou retocarem
várias fotos históricas, eliminando a figura de Trotsky e outros dirigentes que
depois caíram em desgraça.
Às vezes colocavam outros personagens ocupando o
mesmo espaço, às vezes deixavam um vazio, como se ninguém tivesse estado ali.
Esta farsa foi desmontada já na época, o que não
impediu de as fotos retocadas correrem mundo e serem aceitas como autênticas
por militantes desinformados ou fanatizados (da mesma forma que os zumbis da
Igreja Universal não acreditam em nenhuma verdade que a imprensa revele sobre
Edir Macedoet caterva).
O que eu não sabia é que até documentários
históricos foram falsificados por ordem e sob a batuta do Grande Irmão. Fiquei sabendo nesta
6ª feira (10), graças a esta ótima coluna de Ruy Castro, que reproduzo na
íntegra:
STÁLIN COMO COAUTOR
Por Ruy Castro
Outubro (1928), o famoso filme de Eisenstein sobre a Revolução Russa e um
dos maiores já feitos, tem sido muito citado por esses dias, nos cem anos da
dita. Na quarta última (8), eu próprio falei dele e de como suas sequências
foram usadas em muitos documentários, como se tivessem sido filmadas ao vivo,
nas ruas de Petrogrado, em 1917. Na verdade, foram mesmo, só que em 1927. E só.
A tomada do
Palácio de Inverno, que definiu a vitória da Revolução, por exemplo. Na tela, a
massa sobe em atropelo as escadarias, invade os grandes salões, troca milhares
de tiros com a guarda de Kerenski e dá voz de prisão ao governo. Na vida real,
não havia uma massa, a guarda não era de nada e um único revolucionário, aliás,
jornalista, prendeu os gatos pingados. Enquanto isso, o repórter americano John
Reed, futuro autor do livro Dez Dias que Abalaram o Mundo, em que o
filme se baseou, tomava sua sopa num café ali perto, sem saber do que se
passava.
O grande diretor e o tosco produtor
Não sei por
quê, sempre associei essa sequência à de um filme feito pouco antes, em que a
vitória da revolução também consistia em a multidão tomar o reduto do inimigo
(no caso, a hacienda do governador) a golpes de facas e foices: A Marca do
Zorro (1920), de Fred Niblo, com Douglas Fairbanks —que Eisenstein, fã
do cinema americano, certamente conhecia.
A história
do cinema sempre atribuiu Outubro somente a Eisenstein. Mas está na hora de fazer justiça ao ditador
Joseph Stálin como coautor. Foi Stálin quem encomendou o filme a Eisenstein,
então com 28 anos, e pôs o povo e a cidade de Petrogrado à sua disposição (a
filmagem quase enlouqueceu os habitantes). Em troca, Stálin interferiu no corte
final e mandou Eisenstein reduzir Lênin ao mínimo e eliminar Trotski de vez.
Como seria Outubro tal qual Eisenstein o concebeu?
Fonte: naufrago-da-utopia.blogspot.com.br


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