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Muitos brasileiros acham que o juiz Sérgio Moro, da primeira instância de Curitiba (PR), é um homem preparado, qualificado, um exemplo de juiz.
Será
essa uma imagem verdadeira? Acho que no mundo moderno cada vez mais se cumpre a
máxima orteguiana de que o "homem é o homem e a sua circunstância".
Sérgio Moro, o juiz, é um exemplo rico do personagem que se fez em cima das
circunstâncias.
Conhecedor
da operação "Mãos Limpas", desenvolvida na Itália e que confrontou em
larga escala o poder judiciário e políticos & empreiteiros/fornecedores de
serviços ao estado, caiu em sua vara judicial a investigação sobre operações de
lavagem de dinheiro envolvendo doleiros de muito conhecidos do juiz e da
Polícia Federal.
Dos
doleiros aos funcionários corruptos de uma grande estatal, destes aos
políticos, do fato de que o PT, no poder, incomodava muita gente grande da
mídia e da banca, Sérgio Moro surfou em uma conjuntura mais do que favorável.
Aproveitou as lições - lidas com lupa do processo italiano - e compôs um
personagem. Ternos escuros, gravata fina, voz melíflua, desprezo pelas defesas,
amplo espaço nas mídias, apoio logístico impressionante da PF ... o juiz virou
a celebridade do momento num país que suspira por heróis.
Sua
bem sucedida operação, se desenvolvida de forma criteriosa, discreta e visando
eficientemente golpear de forma profunda as relações nada republicanas - e na
maioria dos casos corruptas - entre os grandes empreiteiros e os políticos
brasileiros, poderia ir além dos efeitos propagandísticos que, a partir de
determinado momento passaram a superar, em muito, os efeitos reais da ação da
Lava Jato.
Por
que isso aconteceu? Por que a operação se desviou? Porque o juiz aceitou o
figurino que lhe foi imposto pelo poder político antipetista no país.
Transformou-se em um instrumento de luta pelo poder político. Foi razoavelmente
bem sucedido na tarefa que lhe coube, uma vez que foi instrumento fundamental
para a debacle do governo Dilma Rousseff e para o emparedamento do PT nas
eleições municipais de 2016 (muito a ele, seu aliado e amigo, João Doria Jr.
deve a eleição em primeiro turno em SP, derrotando o ótimo prefeito Fernando
Haddad).
Meus
críticos, muitos, poderão argumentar: mas o juiz de Curitiba só fez dar
sequência aos fatos que caíram na sua mesa. Sinto muito desapontá-los, mas não
é verdade. Muito pelo contrário. Na sequência dos fatos investigados na Lava
Jato e nas linhas finas das delações premiadas - e muito bem premiadas -
apareceram os grandes esquemas de corrupção político-empresarial que vigoram no
país há pelo menos três, quatro, décadas.
Por
que o juiz de Curitiba não seguiu as fartas estradas abertas pelo operador
master e delator ligado ao PSDB/PMDB Sérgio Machado, que gerenciava esquemas
milionários no âmbito do próprio grupo Petrobras?
Por
que o juiz Sérgio Moro não aprofundou as investigações em torno de Andréa Neves
(operadora do grande esquema de corrupção em MG que tinha em seu irmão Aécio
Neves, presidente do PSDB, seu representante político), que estava também
ligada por negócios vários às mesmas empreiteiras investigadas na Lava Jato, e
desta forma poderia municiar a justiça federal em MG das suspeitas/indícios fortíssimos
sobre a personagem?
Por
que o juiz Sérgio Moro não chamou a atenção da imprensa, ele que sempre teve
acesso fácil à grande mídia impressa e televisiva do país, para as inúmeras
citações dos delatores da Lava Jato ao operador master dos tucanos em SP, o
notório Paulo Preto, coordenador de um amplo esquema envolvendo políticos e
empreiteiros a partir da DERSA/SP?
Não.
No lugar de demonstrar o espaço real, sistêmico, estrutural, das relações entre
políticos - de quase todos os partidos, mas com predominância efetiva aos
ligados ao PMDB, PP, PSDB, PT e DEM, nesta ordem, - preferiu o juiz de Curitiba
centrar atenções na caça desenfreada ao principal líder petista, o
ex-presidente Lula.
Perseguição
grotesca, que desafia todo sistema penal brasileiro. Processos montados de
encomenda, farsa sobre farsa, uma colcha de retalhos de indícios pinçados por
procuradores ávidos por holofotes, buscando a imputação jurídica de uma
liderança política.
E
agora? Ao final do primeiro processo montado para emparedar, encher o saco -
quase ao estilo confessado por Aécio Neves em uma gravação vazada de como
começou a denúncia do PSDB ao PT no TSE por crime eleitoral - de Lula pelo MPF
e a PF, conduzido diretamente ou indiretamente, consciente ou
inconscientemente, pelo incentivo do juiz celebridade, qual será a sentença que
este proferirá?
Não
sei.
Só
sei que o juiz celebridade, o juiz poderoso, o juiz destemido, transformou-se,
neste momento, em um juiz acossado, em um juiz quase sem fôlego, em um juiz
perdedor.
E,
isto, independe do teor da sua sentença.
Condenando
o ex-presidente, o fará em um processo viciado, maculado pelo histrionismo de
um procurador boçal, marcado por disputas vulgares entre o juízo e a defesa,
denunciado por irregularidades que em algum momento serão apreciadas pelas
cortes superiores.
A
sentença, se condenatória, será o coroamento de uma peça jurídica imperfeita.
Dificilmente resistirá à prova do futuro. E será entendida, por praticamente
metade do país, apenas como um mecanismo para tentar afastar o maior líder
popular da nação do seu campo natural de atuação, tolhendo-lhe o espaço
político.
Não
condenando o ex-presidente, hipótese que me parece menos provável, o juiz
celebridade cairá no descrédito dos seus muitos seguidores. Será duramente
cobrado pelos que alavancaram sua trajetória pública pelo atestado de
honestidade - esta será a leitura política de uma não condenação - passado ao
ex-presidente Lula que, se sem este já conta com amplo apoio popular, com ele
disparará nas próximas pesquisas eleitorais.
À
bout de souffle, acossado, sinuca de bico ... eis
onde as escolhas equivocadas colocaram o poderoso juiz de Curitiba.
Fonte: http://www.contextolivre.com.br

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