Uma fazenda-modelo para criar o "gado do futuro" e resolver parte do problema mundial da fome era o grande plano da montadora alemã Volkswagen em sua estratégia de ramificação de negócios no Brasil. Ao receber uma oferta do regime militar para participar do projeto de desenvolvimento da Amazônia, a empresa não perdeu a oportunidade de investir no agronegócio.
O projeto que, na década de 1970, parecia um ótimo
investimento, com lucros garantidos, tornou-se, poucos anos, depois um pesadelo
para o grupo alemão. Além de enfrentar acusações de ambientalistas sobre o
desmatamento, a empresa se viu envolvida num escândalo sobre a exploração de
trabalhadores em suas terras.
"Todas essas polêmicas que aconteceram na fazenda da
montadora nos anos 1970 e 1980 ajudaram a construir a Amazônia como um espaço
político nacional e internacional. A Volks acabou se tornando um símbolo da
invasão da Amazônia por grandes empresários e grupos locais e
estrangeiros", afirma o historiador Antoine Acker, cujo livro Volkswagen
in the Amazon: The Tragedy of Global Development in Modern Brazil será
lançado em julho.
Acker acrescenta que, apesar de a montadora alemã não ser a
única que desmatava a região, ela era o nome mais conhecido. "Por
isso, o escândalo da Volkswagen foi uma oportunidade para que muitas
associações, partidos políticos e ativistas chamassem a atenção internacional
para a Amazônia", ressalta.
"Integrar para não
entregar"
Apesar de tentativas de desenvolvimento da Amazônia ocorrerem
desde o final do século 19, com os ciclos de exploração da borracha, somente
após o golpe militar de 1964 foi posto em prática um plano extensivo para a
ocupação e "modernização" da região.
Com o lema "integrar para não entregar", o regime
militar fez do desenvolvimento da Amazônia uma de suas prioridades. Para
isso criou a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam),
responsável por colocar em prática essas ideias e administrá-las, além de
buscar investidores interessados em negócios na região.
Mesmo propagando o discurso de proteger a Amazônia para
evitar sua internacionalização, os militares faziam vista grossa, e até
promoviam, investimentos estrangeiros na região. Nesse
contexto surgiu a fazenda-modelo da Volkswagen no sul do Pará.
Na época, duas versões sobre o pontapé inicial da iniciativa
circularam. No Brasil, divulgava-se que a empresa alemã e principalmente seu
presidente no Brasil, Wolfgang Sauer, faziam questão de cooperar com o projeto
de colonização da Amazônia.
Na Alemanha, para conquistar o aval do conselho de
administração, o presidente do grupo na época, Rudolf Leiding, alegou que o
negócio foi um pedido do regime militar. Mesmo sem consultar o conselho, ele
havia comprado parte do terreno onde seria a fazenda em 1973.
"Na reunião do conselho, a compra acabou sendo validada,
pois já havia ocorrido. Como não conhecia muito bem a situação brasileira,
o conselho simplesmente aprovou porque não sabia do que se tratava. Leiding
tentou explicar que a Volkswagen teria muito lucro se investisse na
Amazônia", disse Acker.
Nessa controvérsia surgiu a Companhia Vale do Rio Cristalino
(CVRC) e, com ela, os planos da montadora de exportar o gado produzido no
Brasil para Europa, Japão e Estados Unidos.
Entre 1974 e 1986, Volkswagen criou
gado no sul do Pará
Fazenda de alta tecnologia
Em 1974, com o aval da Sudam, a Volkswagen deu
início ao projeto para transformar o espaço de 140 mil hectares no sul do Pará
numa fazenda-modelo. O primeiro passo foi desmatar a área para a criação do
pasto. De acordo com a legislação da época, a empresa poderia botar abaixo as
árvores em metade do território.
Os planos da Volkswagen eram ambiciosos. Na CVRC deveria ser criado o gado
do futuro. Assim, a iniciativa mostraria que, com o uso de novas tecnologias,
seria possível ter uma pecuária tão eficiente e lucrativa numa região de clima
tropical como em climas temperados. O projeto tinha ainda intenções
sociais. Leiding dizia que a fazenda forneceria proteína para nutrir a
população do Terceiro Mundo, como na época eram conhecidos os países pobres.
Para isso, a montadora não economizou em tecnologia e pesquisa, investiu em
estudos do solo e dos animais, monitorou pastagens e rebanho com um
sistema computadorizado. Tudo parecia seguir o rigoroso padrão alemão de
qualidade.
Porém, logo após as primeiras queimadas, ambientalistas começaram a denunciar a
devastação promovida pela empresa e os impactos incalculáveis que o
desmatamento poderia causar no clima global. Além disso, a Volks foi acusada
iniciar a derrubada da floresta sem a autorização de todos os órgãos
brasileiros responsáveis.
No final da década de 1970, essas denúncias chegaram à Alemanha e à Europa por
meio de reportagens publicadas na imprensa internacional. O desmatamento
causado pela Volkswagen no Brasil foi tema de debate no Bundestag e no
Parlamento Europeu.
A montadora, no entanto, alegava que respeitava a legislação brasileira e
derrubava somente o permitido, além de argumentar que usava os métodos
utilizados por todos na região e que estava investindo no progresso do Brasil.
As críticas dos ambientalistas, porém, estavam longe de ser as únicas
enfrentadas pela empresa.
Condições análogas à escravidão
Apesar de promover que havia tirado da pobreza vários dos cerca de 400
empregados da fazenda e lhes proporcionado o acesso à saúde e educação, a
realidade dos terceirizados era bem diferente. Em 1983 vieram à tona as
primeiras denúncias de casos de condições de trabalho análogas à escravidão
dentro dos limites da CVRC.
"Houve casos de detenção e até assassinato de trabalhadores que prestavam
serviço para a Volks", conta Ricardo Rezende, que na época era o
coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Araguaia-Tocantins e foi
responsável por denunciar as violações cometidas contra os terceirizados na fazenda
da montadora alemã.
Com promessas mentirosas, os trabalhadores eram recrutados por
"gatos", como eram chamados os empreiteiros, pessoas físicas
transformadas em jurídicas, contratadas pela Volks para desmatar a fazenda e
fazer o pasto. Na fazenda, os recrutados eram obrigados a trabalhar para pagar
supostas dívidas, sofriam violência e eram ameaçados, além der serem impedidos
de deixar a região. As condições de trabalho, moradia e alimentação eram
insalubres.
O escândalo foi amplamente noticiado pela imprensa internacional. Na Alemanha,
algumas ONGs lançaram uma campanha de boicote aos produtos da empresa. A
Volkswagen não negava as acusações, mas argumentava que não era a responsável
pelos maus-tratos e péssimas condições de trabalho, que seriam de
responsabilidade das empreiteiras contratadas.
Além dos escândalos, no decorrer dos anos, a CVRC se revelou um investimento
deficitário. A montadora nunca alcançou a meta de produzir 56 mil cabeças de
gado por ano. Em 1981, foram apenas 27,5 mil. O projeto dava prejuízo, sendo
75% financiado pelo governo brasileiro por meio de incentivos fiscais. Diante
disso, a Volkswagen resolveu se livrar do "problema-modelo".
"Devido às condições gerais econômicas difíceis, assim como os
investimentos volumosos no Brasil, a empresa decidiu, em 1986, vender a
Companhia Vale do Rio Cristalino, também por não alcançar os lucros
esperados", afirmou um porta-voz da Volkswagen à DW.
Auditoria externa
Em 1986, a Volkswagen colocou a fazenda à venda por 80 milhões de dólares. Em
dezembro, a empresa decidiu vendê-la por 20 milhões de dólares à família
Matsubara – imigrantes japoneses do Paraná que plantavam algodão e criavam
gado.
Os Matsubara, porém, não arcaram com todos os pagamentos, e a Volks acabou
ficando com a hipoteca da CVRC. Somente em 1997, a montadora conseguiu se
livrar completamente da fazenda, que foi leiloada e adquirida por empresários
brasileiros. No ano seguinte e em 2015, partes da CVRC foram
desapropriadas e destinadas à reforma agrária. Atualmente, a região é palco de
violentos conflitos agrários. No episódio mais recente, em maio, quatro pessoas
morreram.
Questionada sobre como a Volkswagen avalia atualmente a CVRC e as denúncias
envolvendo o projeto, a montadora alemã afirmou à DW que espera o resultado
de uma investigação externa, que apura possíveis colaborações com a ditadura militar, para
se posicionar sobre o tema
Fonte: Carta Maior


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