domingo, 25 de junho de 2017

DESENVOLVIMENTO: O menos pior


A solução está na anulação das eleições de 2014 e na renomeação de ministros do STF? Seria o caos!

Por Delfim Netto


A situação em que nos encontramos é extremamente grave e, infelizmente, não tem uma solução ótima.

Peço perdão aos meus leitores para tratar novamente do problema que nos atormenta neste grande espetáculo teatral televisivo que ocupou o País. Somos, frequentemente, vítimas da facilidade com que aceitamos a duvidosa máxima vox populi, vox Dei, adorada pelos demagogos.

O homem só pode obter a sua sobrevivência material e se reproduzir, no intercurso (através da sua atividade “natural”, o trabalho) com a natureza, na qual se apropria de recursos e os conforma às suas necessidades. No longo processo de seleção natural, ele aprendeu, na prática, que sua produtividade poderia ser aumentada se o seu trabalho fosse ajudado e apoiado por instrumentos construídos com a sua capacidade de imaginar.

A primeira “pedra lascada” produzida consciente e intencionalmente promoveu um “salto quântico” na capacidade do sapiens, que o transformou e o levou a transformar o mundo. Gerada na sua imaginação e construída com a sua habilidade manual, era um artefato que “cristalizava” o seu trabalho num objeto, uma espécie de “bem de produção” que, quando utilizado para apoiar o seu trabalho vivo cotidiano, aumentava-lhe a produtividade, ou seja, permitia-lhe gozar de uma quantidade maior de bens ou de lazer.

O homem descobriu, assim, que o aumento da produtividade do seu trabalho dependia, basicamente, de um equilíbrio harmonioso entre o tempo destinado à produção de sua subsistência e o tempo destinado à produção dos bens de produção”.

As reformas propostas pelo governo Temer, contra as quais luta ferozmente a “elite rentista” do funcionalismo público federal que hoje controla o Estado, destinam-se a restabelecer a harmonia perdida pelo aumento exagerado do consumo (aposentadoria e assistência social) em detrimento do investimento em saúde, educação e infraestrutura que produzem o aumento da produtividade do trabalho.

A situação em que nos encontramos, de resistência às reformas misturada às incertezas produzidas por delações premiadas, é extremamente grave e, infelizmente, não tem uma solução ótima. Na melhor das hipóteses, com muita inteligência servida por coragem cívica, paciência e “sangue-frio”, talvez seja possível chegar à solução menos pior: aquela que aumenta a probabilidade de aprovação das reformas no curto prazo, sem inocentar, antecipadamente, quem deverá explicar-se nas delações no prazo médio.
A isso se soma a justa indignação da sociedade pela luz que a Operação Lava Jato lançou sobre o incesto criminoso resultante do capitalismo de “compadres” que se apropriou do Estado e pôs em risco a democracia. Tudo temperado com um sistema de informação social instantânea cujos valores passam longe da “verdade” e estimulam a intriga e a desconfiança. A rigor, não temos mais jornalistas. Assumiram – quase todos – o papel de renomados “jurisconsultos” que arbitram com propriedade, e “sem dúvida nenhuma”, onde está a “verdade” nos contraditórios argumentos teóricos dos ministros do STJ, do STE ou do STF, que consumiram a sua vida tentando encontrá-la.

Fonte: Carta Capital

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