A solução está na anulação das eleições de 2014 e na renomeação de ministros do STF? Seria o caos!
Por Delfim Netto
A situação em que nos encontramos é extremamente grave e, infelizmente,
não tem uma solução ótima.
Peço perdão aos meus leitores para
tratar novamente do problema que nos atormenta neste grande espetáculo teatral
televisivo que ocupou o País. Somos, frequentemente, vítimas da facilidade com
que aceitamos a duvidosa máxima vox populi, vox Dei, adorada pelos
demagogos.
O homem só pode obter a sua
sobrevivência material e se reproduzir, no intercurso (através da sua atividade
“natural”, o trabalho) com a natureza, na qual se apropria de recursos e os
conforma às suas necessidades. No longo processo de seleção natural, ele
aprendeu, na prática, que sua produtividade poderia ser aumentada se o
seu trabalho fosse ajudado e apoiado por instrumentos construídos com a sua
capacidade de imaginar.
A primeira “pedra lascada” produzida
consciente e intencionalmente promoveu um “salto quântico” na capacidade do sapiens,
que o transformou e o levou a transformar o mundo. Gerada na sua imaginação e
construída com a sua habilidade manual, era um artefato que “cristalizava” o
seu trabalho num objeto, uma espécie de “bem de produção” que, quando utilizado
para apoiar o seu trabalho vivo cotidiano, aumentava-lhe a produtividade, ou
seja, permitia-lhe gozar de uma quantidade maior de bens ou de lazer.
O homem descobriu, assim, que o aumento
da produtividade do seu trabalho dependia, basicamente, de um equilíbrio
harmonioso entre o tempo destinado à produção de sua subsistência e o tempo
destinado à produção dos “bens de produção”.
As reformas propostas pelo governo
Temer, contra as quais luta ferozmente a “elite rentista” do funcionalismo
público federal que hoje controla o Estado, destinam-se a restabelecer a
harmonia perdida pelo aumento exagerado do consumo (aposentadoria e assistência
social) em detrimento do investimento em saúde, educação e infraestrutura que
produzem o aumento da produtividade do trabalho.
A situação em que nos encontramos,
de resistência às reformas misturada às incertezas produzidas por delações
premiadas, é extremamente grave e, infelizmente, não tem uma solução ótima. Na
melhor das hipóteses, com muita inteligência servida por coragem cívica,
paciência e “sangue-frio”, talvez seja possível chegar à solução menos pior:
aquela que aumenta a probabilidade de aprovação das reformas no curto prazo, sem
inocentar, antecipadamente, quem deverá explicar-se nas delações no prazo médio.
A isso se soma a justa indignação da
sociedade pela luz que a Operação Lava Jato lançou sobre o incesto
criminoso resultante do capitalismo de “compadres” que se apropriou do Estado e
pôs em risco a democracia. Tudo temperado com um sistema de informação social
instantânea cujos valores passam longe da “verdade” e estimulam a intriga e a
desconfiança. A rigor, não temos mais jornalistas. Assumiram – quase todos – o
papel de renomados “jurisconsultos” que arbitram com propriedade, e “sem dúvida
nenhuma”, onde está a “verdade” nos contraditórios argumentos teóricos dos
ministros do STJ, do STE ou do STF, que consumiram a sua vida tentando
encontrá-la.
Fonte: Carta Capital

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